20 de nov de 2016

Su casa, mi casa?

Apartamento que eu e maridão alugamos na Alemanha pelo AIRBNB
A tecnologia tem feito maravilhas pelo turismo. Os avanços vão de sites que buscam passagens e hotéis com os melhores preços até plataformas que ligam proprietários de imóveis a locatários de curtíssima estadia, de forma bem descomplicada. 
Além do avanço tecnológico, há o avanço cultural, tanto para quem abre as portas de casa para receber um estranho, quanto para quem embarca na experiência de se hospedar na casa de outra pessoa, igualmente estranha, mas parcialmente decifrável pelas referências encontradas nos sites.
Esses avanços refletem as faces da economia do compartilhamento e colaboração (peer-to-peer), que enfatiza o uso, e não a posse, seja de bens, espaços ou serviços. 
A indústria da hospedagem está sofrendo uma revolução tão abrupta na era da economia do compartilhamento que, atualmente, o Air ABNB, -plataforma que conecta quem tem um espaço pra locar a quem busca um espaço - vale 10 bilhões de dólares, mais do que a estabelecida rede de hotéis Hyatt. Detalhe: o AIR BNB não possui um imóvel sequer.
Hospedar-se pelo Air BNB ou Nestpick é geralmente mais barato do que se hospedar em um hotel tradicional. Mas não é somente a questão financeira que tem levado mais e mais pessoas a buscarem essa opção de hospedagem. O ingrediente que tem feito a cabeça da turma é a tal da "experiência". 
É de conhecimento notório que hotéis são incrivelmente práticos, mas extremamente frios, no sentido da interação com os locais. Já se hospedar na casa de alguém envolve muita interação. Desde a troca de e-mails e mensagens até o real téte-a-téte, quando se chega no imóvel alugado. 
Já me hospedei pelo AIR BNB em vários lugares. Na foto abaixo, estava em Ghent, Bélgica, com duas grandes amigas. 
Esse cafofo saiu baratinho, mas uma de nós teve que dormir no sofá, já que só havia uma cama. E quando chegamos, o apartamento não estava limpo, tinha até cabelo no chão do banheiro, e o dono deixou a chave ao ap numa farmácia, pois que ele tinha viajado no dia em que chegamos. Nem tudo são flores no mundo dos imóveis compartilhados... 
Mas essas viajantes bem humoradas conseguiram ver o lado bom do cafofo do cascão kkk. Ah como é bom viajar com amigas. Tudo é alegria!
Nem sempre acontece a interação com o (a) dono do imóvel, mas em todas as vezes que me hospedei pelo AIR BNB, me senti mais "em casa", e mais envolvida com a cidade. 
Cada anfitrião tem uma característica, esse belga era meio nojentinho, mas a anfitriã do imóvel de Munique era uma alemã linda e fofa que nos recebeu com uma torta de morangos deliciosa e tinha um cartão fofíssimo de boas vindas nos esperando. Eu sou meio fofa também, e levei pra ela do Brasil uma caixa de sabonetes da Natura com ativos da Amazônia. E quando saímos do apartamento, deixei um bouquet de tulipas para ela. 
Além das hospedagens citadas acima, também usei o Air BNB pra ficar em Miami, Amsterdã, e a próxima estadia será em Toronto, Canadá. 
Salvo alguns perrengues, eu acho o maior barato ficar em apartamentos alugados pelo AIR BNB. Economizo na hospedagem e me sinto uma cidadã emprestada em cada destino que visito.
O que você acha dessa tendência de hospedagens? Já ficou em algum apartamento alugado através de plataformas digitais? Ou prefere os hotéis tradicionais?
Conta, conta!
Márcia
♥  ♥  

2 de nov de 2016

Um vestido de várias noivas

O dia do casamento envolve inúmeras escolhas. A principal delas, claro, é a escolha do parceiro ou da parceira.
Partindo do princípio que essa escolha foi acertada, e melhor ainda, abençoada, seguimos para outras escolhas que são muito reparadas pelos convidados: a decoração da igreja e da festa, a comida, bebida, a alegria dos noivos e o vestido da noiva.
Essa indumentária sempre dá o que falar e é um dos itens mais esperados no grande dia.
Da perspectiva da noiva, escolher um vestido para usar no dia do casamento é uma grande responsabilidade, nem tanto pelo escrutínio de outrem, mas pela simbologia que esta roupa carrega. É usando esse determinado vestido que a noiva vai flutuar por um dos dias mais especiais da sua vida. É usando esse determinado vestido que ela entra na igreja, recebe o esposo, festeja com seus convidados. É esse vestido que vai se eternizar nas fotografias e filmagem... Então que seja um belo de um vestido.
No entanto, o belo é relativo. O que eu considero alta costura, você pode considerar um lixo. O que você considera bonito, eu posso considerar como mau gosto... Por isso a noiva precisa escolher um vestido que atenda seus próprios critérios de beleza. No meu caso, também considerei critérios de funcionalidade, já que eu não quis, de jeito algum, ficar com movimentos "engessados" por causa de um vestido muito pesado ou com mangas.
Comprei meu vestido e véu já prontos nos EUA numa viagem que fiz com minha mãe. Foi um momento muito especial de mãe e filha e me lembro com muito carinho dessa fase. Optei por um vestido do estilista Elie Saab, sem brilho nem volume, mas com todas as flores que eu tinha direito. Eu quis um vestido simples e atemporal, que daqui ha 20 anos, quando eu olhar no álbum de casamento, me pareça bonito e elegante. Encontrei esse vestido e, quando o  experimentei, tive a certeza de que aquele era o TAL vestido.
Trouxemos o belo-cujo na bagagem de mão e em setembro de 2015, chegou o dia de finalmente usá-lo.
Aqui no Brasil, fazemos o teste de maquiagem, o teste de cabelo, o teste do vestido... Mas esses testes geralmente não acontecem concomitantemente. É só no dia do casamento mesmo que conseguimos juntar o resultado de todos os testes, ou melhor dizendo, de todas escolhas, para então nos depararmos com uma imagem inesquecível: a noiva e suas escolhas refletidas no espelho.
Me senti orgulhosa da noiva que vi refletida. Vi nos meus olhos o brilho que não existia no vestido. Vi na renda do vestido as flores que existem na minha essência. Vi, na ausência das mangas e do volume, a liberdade de movimento que almejei no dia do meu casamento. Em suma, me vi como a noiva que sempre sonhei ser. 
Depois do casamento veio a lua de mel, a arrumação da casa, a convivência com o esposo. Novas alegrias foram entrando em cena e o dia do casamento ficou na memória como aquele dia especial e inesquecível, mas que ficou no passado.
Pelo menos pra mim foi assim. Conheço ex-noivas que mesmo depois de anos de casadas, ainda estão paradas no dia do casamento. Felizmente eu segui com a vida e estou muito feliz com o maridão. 
E o que fazer com o vestido de noiva?
Bem, o coloquei juntamente com o véu e o sapato numa caixa bem bonita e guardei. 
Até que uma conhecida minha, que estava no meu casamento, me ligou perguntando se eu alugaria/venderia o meu vestido. Ela iria se casar na igreja e gostou muito do modelo que usei. 
Porque não?
Acabei emprestando não só o vestido como também o véu e o sapato, que couberam perfeitamente nela. Não cobrei um centavo pelo empréstimo - eu sabia que o orçamento dela estava super curto -   mas ganhei dela, que é uma super maquiadora, 10 maquiagens para usar durante 1 ano.
Dessa forma, o vestido ganhou outra noiva, e todo mundo ficou feliz. Sei que esse empréstimo fez diferença pra ela. E a gratidão dela me deixou muito feliz. Infelizmente não tenho fotos dessa noiva, mas ela estava deslumbrante usando o meu, melhor, o NOSSO vestido.
Meses depois, um amigo do meu esposo ficou noivo. Acabei ficando muito próxima da noiva dele, que é uma fofa, e conversa vai conversa vem, entramos no assunto do vestido. Ela me disse que queria se casar ao pôr-do-sol e queria um vestido sem manga, bem simples. 
Eu falei pra ela:
- Hum... tô achando que já arrumei um vestido pra você. 
Não deu outra!!! Ela veio até a nossa casa, experimentou o vestido e ficou maravilhosa. Seriam necessários somente alguns ajustes na cintura, nada que uma boa costureira não conseguisse fazer.
Ela me perguntou o valor do aluguel e eu disse a ela que há trocas no mundo que não se pagam com dinheiro. Ela também levou o véu e a sandália, que parece até ter tamanho universal, pois coube em mim e nas duas outras noivas que a usaram :)
Eis aqui a terceira noiva que usou o meu, o NOSSO vestido. Linda demais não é?
Fomos ao casamento deles, que foi gracioso em cada detalhe, e não contive minha emoção ao ver outra noiva feliz usando este vestido.
Nessa altura da minha vida, não consigo extrair significado nos apegos. Pelo contrário, encontro muito significado em desapegos. Tenho me questionado muito sobre a necessidade de consumir, de acumular, de guardar para si coisas que podem tocar outras pessoas. E quanto mais me questiono, mas vontade eu tenho de deixar a energia fluir para outros cantos, seja através de um vestido de noiva ou de um simples livro.
Veja bem, eu não saio emprestando o vestido de noiva para qualquer pessoa, mas eu fui tocada por essas duas mulheres batalhadoras. Elas me pediram algo que eu tenho, e que está guardado numa caixa sem nenhum uso. É claro que esse vestido de noiva tem enorme significado pra mim, mas porque não deixar que ele tenha significado para outras mulheres queridas também? O que, além de um apego mesquinho, me impediria?
Nada... Nada mesmo. E confesso: o que eu recebi delas em troca - gratidão genuína e carinho - foi muito maior do que o vestido que emprestei.
Depois da cerimônia religiosa, essa noiva linda da foto me pegou pelas mãos e me apresentou à sua mãe.
- Mãe, essa é a Márcia que me emprestou o vestido dela. - disse a noivinha.
A mãe dela me deu um abraço muito apertado e se emocionou, e eu me emocionei de tabela. Ela me agradeceu muito por oferecer à filha dela algo que ela não pôde oferecer, pois o orçamento dela estava muito apertado, e profetizou tantas maravilhas na minha vida, tantas bençãos e tanta energia boa que eu fiquei até zonza de ouvir aquele volume de positividade  e bençãos.
- Amém, amém, amém - eu dizia.
Foi só um vestido, um véu e um par de sapatos em troca de tantos sentimentos nobres.
Qual é o real valor das coisas, se não tocamos as pessoas?
E você, emprestaria seu vestido de noiva?
Conta aí!
Beijo
Márcia

"O mais importante é a intenção que há por trás de dar e receber. A intenção deve ser a de provocar alegria em que dá e em quem recebe, porque a felicidade é sustentadora e provedora de vida. Por isso, ela acrescenta. O retorno é diretamente proporcional ao volume doado, quando é feito de forma incondicional e sincera. É por esse motivo que o ato de dar tem de ser prazeroso. A intenção por trás deste ato deve ser a do prazer de simplesmente dar. Só então a energia acumulada no ato de dar multiplica-se muitas vezes"

~ Deepak Chopra

25 de out de 2016

Drink perfeito para os trópicos ~ A tipsy popsicle


Me desculpe o trocadilho, mas o calor é o assunto mais quente do momento no centro-oeste brasileiro. 
Nos espaços de espera forçada como elevadores e filas, o papo sempre envereda para o clima:
- Tá quente, né?
Tá sim meu senhor, minha senhora, e reclamar não fará o clima esfriar... Mas um bom ar-condicionado sim.
Há outros paliativos que nos ajudam a sobreviver num dia muito quente, como roupas leves, sucos gelados, prendedores de cabelo e drinks com picolé ;) 
Há alguns dias recebemos em casa e para aliviar o calor servimos um drink que além de muito saboroso, é deveras  fotogênico. 
É bem simples de fazer e leva:
- Hortelã;
- Prosecco ou champagnhe ice;
- Picolé, preferencialmente de frutas cítricas. 
Basta servir o prosecco geladinho com um picolé dentro e folhas de hortelã pra garantir mais frescor ainda. Como tenho um vaso de hortelã em casa, deixei que os convidados "colhessem" as folhas frescas. Por mais trivial que esse ato seja, alguns ainda se encantaram com o pequeno "contato" com a natueza :)
Delícia!!!
♥  ♥  

14 de out de 2016

Balançou mas não caiu!

É minha gente... Esse bloguito balançou, balançou e quase caiu! 
Não foi por falta de tempo, tampouco por falta de assunto, que deixei de escrever aqui. Foi por falta de vontade mesmo. 
Boas ideias de textos frequentemente me visitavam mas, antes que os dedos alcançassem o teclado, as ideias batiam em retirada. E junto com elas, ia embora meu interesse por esse canto, seja lá qual aspecto geográfico/morfológico o "canto" assuma nessa história. 
Depositei então minhas fichas no Instagram, imaginando que nele eu conseguiria expressar todas as minhas baboseiras em formato de imagens.
Mas acabei descobrindo que uma imagem não vale mais que mil palavras... E apesar do Instagram ser muito bacana, me fez grande falta este espaço para guardar minhas elocubrações e os inúmeros monólogos que travo com vocês que me leem. 
Por falar em vocês, pessoinhas lindas, serumaninhos iluminados, fiquei surpresa em saber que vocês de fato, existem
Momento carência: me questionei porque gastar tempo escrevendo para... Para quem mesmo?
Nos 20 dias em que o blog ficou suspenso - à caminho do extermínio - uma amiga me mandou zap perguntando o que tinha acontecido com o meu blog, pois ela queria pesquisar sobre roteiros de viagem na Ásia. Fiquei até envaidecida sabe, por ela achar que eu já estive na Ásia e melhor ainda, por ela achar que eu teria algo a acrescentar em sua pesquisa.
Pelo facebook, a Dani e a Germana me perguntaram o que tinha acontecido com o blog. Respondi: - Foi excluído, coitado... Era uma vez!
Mas a saudade de escrever foi somada à vontade de receber vocês no meu canto (ainda indefinido em termos geográfico/morfológicos) e decidi voltar. 
Para celebrar esse momento de total insignificância para o mundo, mas de algum significado para mim, chamo Roberto Carlos... 

"Eu cheguei em frente ao portão
Meu cachorro me sorriu latindo
Minhas malas coloquei no chão
Eu voltei

Tudo estava igual como era antes
Quase nada se modificou
Acho que só eu mesmo mudei
E voltei

Eu voltei agora pra ficar
Porque aqui, aqui é meu lugar
Eu voltei para as coisas que eu deixei 
Eu voltei"


Continuo sem medo de ser brega romântica e feliz!
♥  ♥  

14 de set de 2016

Consolo celeste

Um balão nas mãos de uma criança é como ouro nas mãos de um adulto. Trata-se de um patrimônio. Mas basta um vento, ou uma suave distração, para o nó desatar dos dedinhos miúdos e patrimônio sair voando, deixando os pequenos à beira do desespero. 
Nem os mais ágeis pulos nem os bracinhos alvoroçados são capazes de trazer o balão de volta. A perda, reforçada pela crescente altitude que o balão atinge em questão de segundos, traz à tona lágrimas desoladas. E mesmo nós, adultos corroídos por desfalques maiores, somos capazes fazer contato e nos solidarizar com essa pequena perda. 
Dias atrás levei minhas duas sobrinhas ao zoológico e comprei um balão para cada. Nos sentamos na grama para lanchar e foi nesse breve momento de descuido que o balão da sobrinha de 2 anos saiu voando. Ela abriu um berreiro, e que choro sofrido era aquele meu Deus, parecia até que o balão era um ente querido que acabara de morrer. Observando a irmã mais nova desolada, a outra sobrinha (de 5 anos) abraçou a menor e disse, com uma convicção incompatível com sua tenra idade:
- Estela! Pára de chorar!! O "Jezuiz" vai pegar seu balão lá em cima!
Esta é uma das falas mais lindas que já ouvi de uma criança, e me revelou uma enorme sabedoria. A perda de uns é o ganho de outros. Mas quando "perdemos" algo para Jesus, não existe perda, e sim ganho.
Quando um problema azeda meu dia, imagino este problema como um balão cheio de gás hélio. Desato o barbante para que o problema se distancie de mim e chegue a Jesus. 
E sei que lá em cima ELE vai pegar o meu problema e o seu problema também.
E vai cuidar de tudo direitinho. 
"- Pára de chorar!! O "Jezuiz" vai pegar seu balão lá em cima!
É bem por aí, minha sobrinha.

♥  ♥  

16 de mai de 2016

Leitura leviana

Há quem julgue o livro pela capa. E há quem julgue o outro pelos livros que ele (a) lê. Literatura russa? Intelectual. Graciliano Ramos? Vestibulando. Augusto Cury? Economizando na terapia. Paulo Coelho? Hippie new age. 
E daí?
Quem está lendo é você... Quem vai passar dias com o livro no colo, na bolsa, na cabeceira é você! Quem vai se beneficiar das informações ou da distração que o livro proporciona é você. De forma que o critério de escolha tem que partir unicamente de você e do seu momento. 
Esse manifesto de libertação me veio à mente semana passada, quando visitei um sebo no centro da minha cidade. Aliás, sebo é um nome bem feio para designar uma loja de livros usados, mas tudo bem. Prefiro consumir livros usados num sebo e evitar a derrubada de um eucalipto a entrar no shopping e comprar um livro novinho. Essa atitude hoje me parece ambientalmente mais coerente. 
Então lá estava eu percorrendo prateleiras de livros de segunda mão no sebo quando me flagrei na seção de romances, mais especificamente entre a autora americana Nora Roberts e a irlandesa Marian Keys. Me estranhei. Duvidei do meu bom gosto literário, se é que já o tive. Mas a verdade é que eu precisava, naquele momento, de um livro bem bobinho- capaz de aliviar os dias tensos que estou vivendo. 
O vendedor do sebo, que conhece minhas preferências, estranhou a escolha. 
- Esse? - perguntou. 
- Exatamente esse. É o que preciso hoje. 
Saí alegrinha do sebo carregando um pesado livro chamado "Cheio de charme" da escritora Marian Keys. Quando eu estava em público, numa fila ou esperando algo, eu fazia o possível para esconder a capa do livro, temendo ser julgada de fútil. Em casa eu não escondia nada, já que o marido acha bacana o meu hábito de ler (independente do conteúdo).
Depois de algum tempo, eu já não escondi mais a capa do livro. Tava nem aí com a paçoca... Se quiserem me rotular de superficial pelo livro que leio, que o façam. As pessoas vão julgar de um jeito ou de outro.
Mas eu aprendi uma liçãozinha dessa vez: a não julgar o outro pelo livro que ele/ela lê. Nem mesmo se o livro for da série Sabrina, vendida nas bancas de revistas. 
Cada um sabe aonde encontrar o seu alívio, e se o alívio vier dos livros, considero que já é um bom sinal.

8 de mai de 2016

Nem sempre acaba bem...

O dia tinha sido maravilhoso em Ghent, com sol a pino e muito bate perna. Já passava das dezoito horas quando eu e minhas duas amigas fomos acometidas pelo dilema do turista que quer aproveitar ao máximo as 24 horas do dia, mas o corpo já está berrando: banho e cama!!! 
Decidimos entrar num lugar sossegado para uma saideira ligeira acompanhada por algum petisco, que na Bélgica poderia ser uma bela porção de batatas fritas. 
Encontramos um bar bacaninha, meio escondido e vazio, que parecia a pedida perfeita para encerrar o dia. 
Pedi uma taça do vinho da casa (pavoroso de ruim!), enquanto as amigas se deliciavam com suas cervejas belgas. Entre goles e batatas, jogamos conversa fora e planejamos o dia seguinte, tudo na maior paz. 
Só que a paz - tanto a nossa quanto a do ambiente - foi para as cucuias no momento em que o bar foi invadido por uma manada de homens barulhentos e bêbados. Pelo sotaque, supus que eram ingleses. E pelo estado deplorável em que estavam, supus que se tratava de uma despedida de solteiro. 
Alerta vermelho. 
Ficamos de cabelo em pé, mas já estávamos sentadas, com bebida e comida servida. O jeito foi continuar ali e torcer pra não sermos incomodadas, afinal de contas, aquilo era a Zoropa, certo? Lugar de gente civilizada.
#SQN 1
Um dos homens, encorajado por palmas e muitos incentivos dos demais, veio em nossa direção com uma rosa nas mãos. Nem eu nem minhas amigas fizemos contato visual com ele, continuamos olhando umas para as outras ignorando completamente o babaca supostamente inglês. Mas já viu, homem bêbado fica macho além da conta... Então o homem chegou ainda mais perto da nossa mesa e colocou a rosa entre os dentes, para que uma de nós a pegasse. 
Continuamos ignorando o idiota, que ao invés de receber palmas encorajadoras de seus pares, passou a receber vaias e se tornou o alvo de chacota. Problema dele, quem manda mexer com quem não tá afim de entrar na brincadeira. 
Como um reflexo para aliviar a tensão, dei uns bons goles no vinho, que continuava ruim, mas passou a descer redondo. Ainda faltava muito para secar a taça e as canecas de cerveja das meninas ainda estavam pela metade. Mas como estávamos em alerta, combinamos de finalizar as bebidas rapidamente e colocar a maior distância possível entre nós e aqueles bêbados. 
As palmas e os gritos surgiram novamente e soubemos instintivamente que um segundo babaca iria aparecer. Mais ousado que o primeiro, ele veio sem camisa e parecia um pimentão depenado. Se ajoelhou na minha frente, como se fosse me pedir em casamento, e me ofereceu a rosa. Olhei para as meninas, assustada, mas determinada a colocar um ponto final naquela brincadeira estúpida. 
Na minha cabeça, havia só um jeito de parar com aquilo: pegar a rosa. Caso contrário, apareceria outro homem, mais outro, e só Deus sabe: se o segundo veio sem camisa, o terceiro viria sem o que? Perguntei para as meninas: o que eu faço? Ambas disseram, confirmando minha estretágia: - pega a rosa e acaba logo com isso.
Peguei a rosa sem sorrir nem esboçar qualquer encanto com aquela brincadeira. Mas só o ato de aceitar a rosa do segundo bêbado fez com que os demais gritassem e o aplaudissem como se o time de futebol deles tivesse feito o gol mais bonito da temporada. 
Pelo menos nos livramos deles. 
#SQN 2
O primeiro bêbado, o ignorado, ficou macho. Veio tirar satisfação comigo. Ele foi ovacionado, a turma achou o ultraje dele muito divertido. Ora, como é que eu pude rejeitar a rosa dele e aceitar a rosa do segundo homem?
Aquilo já tinha passado dos limites, mas com bêbado não se discute. 
Resumi minha frustração dizendo: 
- Just leave us alone (Deixe-nos em paz). 
Todos eles gargalharam de uma maneira muito debochada. Toma, sexo frágil! Pegamos nossas bolsas e nos dirigimos ao garçom para acertar as bebidas e sair do bar.
Esse episódio aconteceu ano passado, numa viagem que fiz com duas amigas muito queridas a Bélgica. Lembro que nos sentimos muito frustradas e humilhadas. Tínhamos o direito de não querer participar daquela brincadeira, de querer o nosso espaço respeitado, mas eramos 3 mulheres (visivelmente não belgas, é importante salientar isso), sóbrias contra uns 15 homens bêbados, e não precisa ser um gênio pra intuir que essa equação é problemática.
Três mulheres íntegras finalizando um dia de passeios num bar. E um bando de babacas bêbados estragando esse momento nosso, tão nosso, de jogar conversa fora bebericando vinho ruim, cerveja boa e comendo batatas fritas.  
Já se passou tanto tempo desde que esse episódio chato aconteceu, mas até hoje eu me vejo dando vários finais diferentes a ele. 
Num dos finais eu pego a rosa da boca do bêbado, a jogo no chão e grito - Fucking asshole! Shame on you. 
No outro final o garçom intercede pelas donzelas e pede para que os bêbados barulhentos se retirem do bar (bem impossível esse final, já que eles estavam lá pra beber e o garçom pra faturar...). 
No outro final eu falo alemão com o primeiro bêbado, falo em alto e forte tom, e ele se sente diminuído pela minha inteligência autoritária. O segundo bêdado nem beira, pois quem fala alemão tem superpoderes... 
São tantos os finais diferentes que minha mente dá àquele episódio... Você também já deve ter passado por algumas situações cujos finais poderiam ser outros, bem melhores (pra você, óbvio), mas essa clareza do que fazer geralmente vem depois que o episódio aconteceu. 
Por mais que a mente insista em dar desfechos novos e gloriosos aos episódios vividos, o que nos sobra são os desfechos reais e, por vezes, patéticos que conseguimos dar quando as situações aconteceram. 
No nosso caso, o desfecho patético foi sairmos do bar ao som das gargalhadas de um bando de bêbados idiotas, nos sentindo bem mal. 
Ainda bem que tivemos outros dias na viagem bem mais agradáveis e felizes :)
E você, se lembra de alguma situação cujo desfecho você mudaria? Conta conta!