8 de dez de 2010

Dalva Frango Frito

Eu sabia que ela era loira e tinha acabado de ganhar uma premiação de Miss numa cidade do interior de Goiás. Eu também sabia que ela foi o pivot da separação dos meus pais, motivo pelo qual eu tinha rancor e até uma porção generosa de ódio por aquela moça. Eu dizia pra minha família que iria matá-la quando a conhecesse, e por mais que as pessoas tentassem aplacar os meus sentimentos revoltados de adolescente de 11 anos, eu seguia adiante com minha raiva e queria mesmo dar umas bofetadas nesta loira que levou meu pai pra longe de casa.

Mas eu não tenho coragem de matar um mosquito. Muito menos uma Miss. E me portei educadamente quando meu pai apresentou sua nova namorada para minha irmã e eu. Aconteceu tudo muito rápido, ele queria nos apresentar sua loira no dia seguinte à assinatura dos papeis do divórcio, mas minha mãe intercedeu e pediu que ele tivesse um pouco de compaixão com nosso sofrimento (inclusive com o dela), e nos apresentasse à sua namorada depois de algum tempo.

Isto aconteceu. Conhecemos a Dalva depois de um mês que meus pais se separaram. Eu achei ela brega, ela tinha uma cabeleira loira que batia nas nádegas. Mas era esbelta. Ela tinha uma beleza caipira, porque ela tem de fato, raízes caipiras. No geral, achei ela simpática. Perdi a vontade de matá-la logo no primeiro encontro. Felizmente.

Não demorou muito para que ela morasse junto com meu pai. Digamos que o amor deles era muito platônico e urgente, não podia esperar muito para se manifestar e se concretizar, a despeito do sofrimento das demais partes envolvidas. Minha mãe, minha irmã e eu nos mudamos para Goiânia com o coração às migalhas, mas tínhamos uma à outra e estávamos dispostas a recomeçar. E assim fizemos.

Mas a Dalva não sumiu das nossas vidas. Eu e minha irmã visitávamos meu pai no interior 2 vezes por mês. E tivemos que nos hospedar na casa dele, junto com a Dalva. Ai meu Deus. Ela tentava muito nos agradar. E eu gostava do esforço dela. Quanto mais ela tentava, mais eu me sentia forte, era como se ela tivesse uma dívida pessoal comigo que seria quitada à base de muitos mimos.Muuuuitos mimos. E um destes mimos era o frango frito.

A Dalva preparava o melhor frango frito que eu e minha irmã já experimentamos em nossas vidas. E vinha acompanhado de batata frita. Para duas adolescentes da geração Mc Donalds, não havia nada melhor que batata frita e frango frito. E Dalva sabia disso. Era pisarmos o pé na casa deles que ela fazia frango frito. E a gente ficava feliz. Eu até fazia piadinha com ela por telefone:

- Dalva, vamos almoçar frango frito Hoje. Frango frito amanhã. Frango frito no final de semana todo, Ohhhh meu pai! É frango demais.

Eu já estava me acostumando com combinação: Dalva + frango frito. Mas eu tinha meus momentos de rebeldia. Uma vez eu peguei a boneca da Dalva (ela gostava daquela boneca grande chamada Meu Bebê e tinha uma na poltrona ao lado de sua cama) e a arremessei no chão. Fez um barulho alto, e eu gostei da brincadeira. Minha irmã estava filmando a cena e eu peguei a boneca e bati mais umas 5 vezes com a cabeça dela no chão. A Dalva estava fazendo o que? Frango frito. E daí ela me viu espancar a boneca dela e começou a rir. Eu e minha irmã também caímos no riso. E depois disso guardei a boneca na poltrona. Acho que através desta surra na boneca da Dalva eu tirei de mim qualquer resquício de mágoa que eu tinha por ela. E a partir daí nossa convivência se tornou muito especial.

Ela nos emprestava roupas pra ir pra balada, fazia hidratação em nossos cabelos com ovo e babosa e seguia fritando frango todo final de semana. E nós também fazíamos muito por ela. Muito dadas as nossas proporções. Comprávamos presentes pra ela em Goiânia, pagávamos o X-tudo dela quando saiamos no interior... enfins, estávamos equilibrando o mimo, que passou a ser bilateral. Não havia mais dívidas emocionais, e minha mãe foi uma peça chave nesta equação, pois ela nunca plantou em nós ressentimentos para com Dalva ou meu pai.

Foi a Dalva que me ensinou a dirigir. Minha Irmã não tinha paciência, mas Dalva tinha de sobra. Ela tinha um Palio laranja e foi neste carro que tive minha primeira lição de motorista. Eu não conseguia tirar o Palio daquela rua plana. Mas com a calma da Dalva eu fui arrancando, fazendo ela pular no carro, e a bichinha toda paciente comigo... eu nunca vou me esquecer disto.

Em muitas outras situações, eu consegui perceber o carinho da Dalva comigo. E eu também tinha um grande carinho por ela. O começo da nossa relação foi marcado por muita mágoa. Hoje percebo que para ela deve ter sido muito difícil encarar aquela situação nova e desafiadora, pois éramos duas adolescentes, uma de 11 e outra de 12 anos. E ela devia ter uns 26 anos. Meu pai, bem mais velho. Mas todo mundo tentando ser feliz e ser amado.

Há muito tempo a Dalva saiu da vida do meu pai, e eu sinto muito por isto. Quando me lembro dela, eu sinto um nó na garganta... me dá uma vontade imensa de chorar. Porque foi ela que me ensinou, através de tantos frangos fritos, que o amor nasce nas circunstâncias mais improváveis. E nos acompanha pela vida inteira, inclusive numa manhã gelada no interior da Alemanha. 

Dalva, minha ex-madrasta querida, sei que você nunca lerá este texto, mas eu queria pedir desculpa por ter esbofetado sua boneca. Sei que você refez sua vida e hoje tem uma bela filhinha. E eu desejo toda a felicidade do mundo para vocês. Desejo também que algum dia possamos nos reencontrar. Vou te mostrar o quanto dirijo bem.
E Dalva, daria pra você fazer um Frango Frito quando a gente se ver?
Saudades...

Márcia