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Mostrando postagens de 2011

Tango city ~ La ciudad del Tango

Como entender o universo misterioso e impenetrável que é o Tango? Não se pode falar de tango, é preciso ouvi-lo. É preciso ver as estonteantes coreografias e as pernas trançadas com rápidos movimentos. É preciso entender as letras, todas tristíssimas, terminando amiúde em "mi pobre corazón".   Soube a origem de tanta tristeza: nos idos de 1900, quando começaram a chegar os imigrantes italianos, os homens vinham com seus filhos mais velhos e as mulheres ficavam esperando que eles melhorassem de vida para vir encontrá-los. Sem mulheres, os homens dançavam entre si coreografias que simulavam encontros e desencontros, brigas e união, pautados pelo som do bandoneón (uma espécie de sanfona) e da guitarra. No início era apenas a melodia, depois vieram as letras, que falavam das mulheres que permaneceram na Itália e da Mamma, claro. A maioria dos que chegavam eram homens jovens e solteiros, e nas letras do Tango, choravam a saudade do universo feminino. Com o passar do tempo, as …

Paris na primavera ~ Paris in Spring

É verdade que Paris é bonita em qualquer estação do ano. Mas na primavera a cidade se adorna com uma variedade espetacular de flores, e o que seria uma simples fachada se transforma numa obra de arte esculpida por plantas trepadeiras e flores de variados tamanhos e formas. Eu confesso que caminhava distraída. Depois de visitar a Catedral de Notre Dame meus olhos almejavam poucos estímulos. Dobrei uma esquina, a esmo, sem destino, e me deparei com a calçada de um pequeno restaurante. A cena era bucólica e convidativa. Me aproximei, contemplei a paisagem, me sentei numa das mesinhas, muito embora eu não sentia fome nem sede. Eu sentia somente uma inexplicável vontade que de pertencer àquele cenário. De ser parte de Paris. De me render às suas sutis poesias. E isto eu fiz por alguns breves instantes, emoldurada por matizes verdes e lilases, as últimas, minhas favoritas. Sobre a mesa, pequenos cachepôs de flores miúdas e pétalas caídas. E por todos os cantos flores e mais flores, revel…

Um oásis de camomilas ~ An oasis of chamomiles

Se tem algo que satisfaz um viajante é descobrir um cantinho aonde poucos chegaram. Pois a reserva Laguna Nimez é um desses locais.
Escondida às margens do Lago Argentino, esta reserva biológica fica a 15 minutos de caminhada do centro de El Calafate, cidade que é ponto de partida para os mais famosos glaciares sul-americanos. 
Uma vez que os glaciares já foram explorados, as lojinhas do centro da cidade já foram visitadas e os restaurantes experimentados, não há muito que fazer em El Calafate. Mas ao invés de se entregar ao ócio, vale a pena mexer o esqueleto e visitar uma bela reserva biológica e observatório de aves da região.
Convenci minha Mãe a ir comigo e fizemos uma caminhada ligeira do centro de El Calafate até o parque (ou reserva) Laguna Nimez. Pagamos um valor simbólico para entrar e escolhemos o menor dos circuitos de caminhada, haja visto que estávamos simplesmente fazendo uma "horinha" antes do transfer nos pegar no hotel. Naquela altura do campeonato, eu …

Amor de Tia ~ Aunt's love

Amor de Tia é carinhoso, é intenso, é cuidadoso. Mas é um amor por vezes atrapalhado, principalmente quando a Tia
 ainda não foi Mãe. Na hora de trocar a fralda, o amor de Tia não leva jeito, é lerdo e faz a Bebezinha chorar, apesar das tentativas de acalmá-la ao som de Alecrim Dourado e Cai Cai Balão. Amor de Tia tem mil encantos, mas não tolera o cheiro de cocô na fralda. Amor de Tia é forte, mas não aguenta segurar a Bebezinha no colo por muito tempo. Amor de Tia traz todas as encomendas imagináveis da Alemanha para o Brasil, sem reclamar muito, só pra ver a Mãe da Bebezinha feliz. Amor de Tia testa a paciência das suas amigas ao mostrar dezenas de fotos da sobrinha, uma quase igual a outra, mas todas lindas, não é mesmo? Ela não é linda? É o amor da Titia... Amor de Tia faz mil malabarismos para arrancar um sorriso da Bebezinha... E quando isto acontece, quando aquele sorriso ainda sem dentes se estampa no rosto da Bebezinha, a Tia transborda de amor... E o mundo fica doce como u…

O Deus dele pode ser um elefante ~ His God can be an elephant

Eu estava sentada na cantina da TUD (Technische Universität Dresden), acompanhada por um colega indiano, um colombiano, uma iraniana, uma tailandesa e um beninense, e a comida horrível daquele dia que fez nossa conversa enveredar para a religião. Este tópico não é dos melhores para se discutir numa mesa tão, digamos, eclética em termos religiosos e geográficos. Mas eu disse em voz alta que a minha carne de porco estava ruim, e ao ouvir meu comentário, o colega de Benin disse que nunca vai ter este problema (comer carne de porco ruim) porque carne suína é proibida em sua religião.  Então eu perguntei a ele: porque é proibido? E ele respondeu que os mulçumanos consideram o porco um animal muito sujo. E portanto não comem a carne dele. Daí eu engatei uma pergunta pro colega indiano: - porque na Índia não se come carne de vaca? Ele disse que para o hinduísmo, a vaca é sagrada. O colombiano, num tom jocoso e levemente debochado, perguntou: - Sagrada como? O que é algo sagrado para…

Os azulejos de Iznik ~ Iznik pottery

Foi em Iznik, antiga Niceia, que nasceram os primeiros ateliês de cerâmica otomana. Esta belíssima louça oriental, estampada na maioria das mesquitas de Istambul, bem como nos palácios mais antigos, é caricata do império Otomano e salta aos olhos pela beleza das cores e desenhos. Estima-se que, no apogeu da produção, a cidade de Iznik teve 300 manufaturas. Mas no início do século XVIII, influenciadas pelas tendências européias, as Valides (mães dos sultões) substituíram as cerâmicas pelas pinturas florais e rococós. Com isto os palácios construídos mais tardiamente já estampavam tendências ocidentais, como é o caso do Dolmabahçe. Mas as antigas cerâmicas resistiram ao tempo e aos modismos, e continuam encantando quem visita Istambul. Podemos ver nos azulejos todas as variantes de flores, folhagens, arabescos e motivos geométricos, pintados numa infinidade de matizes azuis e verdes e pontuados por um vermelho ocasional. O azul é a cor predominante nos azulejos porque de acordo com uma …

O sorvete turco ~ Turkish ice cream

Tenho um estômago bem adaptado a minha vida de andarilha, e por causa disto, me permito experimentar as especialidades dos países que visito. Na Turquia não foi diferente. Num dia de muito calor, avistei uma carrocinha de sorvete e resolvi me aproximar. O sorvete parecia uma papa sólida e facilmente moldável, com a qual o sorveteiro fazia vários malabarismos. Descobri então, que se tratava de um sorvete muito especial, chamado dondurma, famoso em todos os países que pertenceram ao Império Otomano. Esta especialidade é feita com leite de cabra e leva em sua composição farinha de orquídea seca e resina de mastika, que vem de um arbusto grego. Estes dois últimos ingredientes engrossam o sorvete, que fica com uma textura de puxa-puxa e tem uma grande resistência ao calor. Estas características permitem aos vendedores de dondurma (sempre vestidos com o típico colete vermelho) a execução de divertidos malabarismos, como no vídeo abaixo. Antes de pegar meu sorvetinho de pistache tive que pa…

Os sons de Istambul ~ The sounds of Istambul

Daquela torre esguia, posicionada ao lado da Mesquita Azul, ecoava uma voz estranhamente melodiosa, bonita e misteriosa, que convocava os fiéis mulçumanos para uma das 5 preces diárias. Naquele exato momento, embalada pela profusão de sons que cortavam os céus de Istambul, percebi que minha viagem à Turquia seria uma imersão cultural totalmente diferente das outras que já fiz até hoje. Não quero desmerecer nenhuma viagem que empreendi, pois cada uma foi especial à sua maneira. Mas a Turquia foi o ponto mais distante que visitei, tanto em termos geográficos quanto em termos culturais e religiosos. Este foi meu primeiro contato com um país mulçumano, cujos costumes e religião visivelmente delimitaram nossas diferenças, ao passo que enriqueceram a minha experiência de forma muito especial. Embalada pelas vozes de vários de muezins (religiosos islâmicos que clamam os fiéis)  saídas do alto dos miranetes (espécies de torres), comecei meu tour pela maior cidade da Turquia. E vou compartil…

Do restaurante pro jornal ~ From the restaurant to the newspaper

Talvez vocês tenham visto nos noticiários que uma mutação de vírus/bactéria estava tocando o terror na Alemanha. Vários idosos faleceram e muitas pessoas foram hospitalizadas. As instruções aqui eram simples: evite salada, frutas sem casca, vegetais crus etc. Eu estava ligada nas notícias mas não mudei muito meus hábitos. Primeiro porque o foco da doença era no norte do país. E eu moro no sul. Em segundo lugar, acho os alemães excessivamente cautelosos e alarmados, já eu sou mais tranquila e tenho uma fé inabalável de que tudo vai dar certo comigo. Pois bem, fui a um restaurante e pedi uma salada. Junto com a salada veio um fotógrafo e o dono do restaurante, perguntando gentilmente se não poderiam tirar uma foto para o jornal de uma cliente comendo salada (o que não acontecia há alguns dias)... Resultado: fui parar na primeira página do jornal. E ganhei um café expresso* como cortesia. Olha eu causando na Alemanha, hahahahaha.... Estes foram meus 15 minutinhos de fama aqui. E cont…

Pelas águas do Rio Danúbio ~ A boat tour on the Danube River

Elas viveram muito tempo separadas. De um lado, Buda, repleta de colinas, palácios, nobres e reis. Do outro, Pest, a planície onde se instalou a burguesia e o povo em geral. Foi assim até 1973, quando ambas se uniram. E desde que o comunismo caiu, no finzinho dos anos 80, as irmãs unificadas potencializaram sua sinergia e Budapeste se firmou como um roteiro de peso no leste europeu.   Chegar a Budapeste de trem dá ao viajante um relance da complexa mistura entre decadência e imponência. Digo isto porque a estação ferroviária de Budapeste deve ter sido colossal, mas por falta de reparos e restaurações, se tornou um lugar feio, sujo e desorganizado. Basta descer do trem para ser assediada por cambistas, pessoas oferecendo apartamentos ou taxis. Alguns vendedores são discretos, outros bem invasivos. E aqui vai a primeira dica: só troque dinheiro em bancos, hotéis e casas especializadas. Nada de pegar uma cotação melhor com cambista. É possível que você acabe com notas falsas ou moedas d…

Cheirosa (in) fiel

Álcool + óleos essenciais aromáticos + água = perfume
A equação parece simples, mas resulta num produto de alto consumo que só nó Brasil movimenta 20 bilhões de reais por ano. O tamanho deste mercado impressiona tanto quanto a variedade de fragâncias, que há um século, se resumiam em 150 ingredientes. Atualmente esse número saltou para mil extratos naturais e, graças aos avanços da química, há mais de 3.000 opções em sintéticos, que são a base de muitos perfumes modernos. Algumas empresas baseiam seu diferencial competitivo em ingredientes 100% naturais, extraídos de forma artesanal e sustentável. Outras empresas apostam na exclusividade e criam fragrâncias ao estilo taylor made, ou seja, feito ao gosto do cliente. Já marcas como Chanel e Hermés estão fidelizando narizes abastardos com a criação de pontos de venda exclusivos para as fragrâncias mais sofisticadas. Très chic... A Natura, brasileiríssima, se embrenhou na Amazônia para captar essências que traduzem o frescor da florest…

Pé de Urucum ~ Urucum tree

- Tia, aquilo é pé de quê?
- De Urucum.
- Uru-quê?
- Urucum.
- Serve pra quê?
- Pra colorir. Colorir de vermelho!
- Como?
Cansada de tantas perguntas, peguei a Flavinha no colo e caminhei até o pé de Urucum. A árvore estava florida e alguns galhos já exibiam frutos, que mais pareciam pingos grandes envolvidos por espinhos moles. Deixei a nenenzinha no chão e colhi dois urucuns. Abri gentilmente o fruto e contemplamos as fileiras de sementes, dispostas numa ordem quase perfeita. A Flavinha soltou um – Nossa Tia, que lindu! Então peguei uma semente e fiz um risco vermelho na palma de sua mão. Ela ficou surpresa. Rabisquei um coração na minha mão esquerda mas não consegui repetir a proeza com a pequena. Pra não deixá-la em desvantagem, coloquei três sementes nas palmas de suas delicadas mãos e pedi que ela esfregasse uma na outra, até as sementes ficarem sem cor.  E quando a Flavinha viu suas próprias mãos - vermelhas como o fruto do Urucum (do tupi uru-ku = “vermelho”) - ela abr…