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Meia entrada, culpa inteira

Já finalizei meu curso superior e pós-graduação há um par de anos. Portanto, não sou mais estudante. 
Eu até faço aulas de alemão na universidade, mas estudante, no rigor do termo, eu não sou. E como resultado, não tenho direito a pagar meia entrada em shows, cinemas, teatros e etc. 
Só que eu sou humana, brasileira, e naturalmente fico tentada a usufruir dos descontos, apesar de não ser mais estudante. 
Sei que estou errada, mas encontro subsídios para justificar a vontade de forjar uma carteirinha de estudante, sendo o primeiro deles o preço alto dos ingressos dos shows e cinemas. Isso mesmo! É muito caro acessar a cultura neste país. Eu bem que mereço uma carteirinha falsa pra fazer economia. 
Pensei... Pensei... Fiquei desconfortável com a ideia de forjar uma carteirinha de estudante, mas acabei decidindo fazê-la para pagar meia entrada no show do cantor inglês Elton John. O ingresso "cheio" custava R$ 360,00 e a meia R$ 180,00.
Qual ser humano não ficaria tentado em poupar R$ 180,00?
Na verdade, a economia seria de R$ 140,00, pois pela carteirinha falsa eu pagaria R$ 40,00. O esquema é bem tranquilo, o "forjador" pega em domicílio a foto 3x4 e a identidade do falso estudante e ele mesmo escolhe o curso. Eu fiquei até curiosa pra saber qual curso superior eu estaria cursando na minha carteirinha falsa... 
Mas houve um empecilho para a conclusão da carteirinha. O material para a confecção dela não chegaria antes do show, e eu já tinha comprado a meia entrada confiando que o prazo seria suficiente. 
Acabei vendendo meu ingresso para um tio, ele sim tem direito a meia entrada, e desisti de ir ao show. 
Desisti também de fazer a carteirinha. 
Só que o desconforto de ter batido na trave com a carteirinha forjada ficou rondando minha cachola. Eu me senti envergonhada. Me senti hipócrita por endossar o coro de todos aqueles que reclamam das mazelas sociais brasileiras, mas não conseguem transformar o discurso numa atitude de mudança. Afinal de contas, qual sociedade vai pra frente quando benefícios individuais justificam atitudes grotescas como a que eu estava prestes a tomar? 
Eu reclamo do Brasil, me emputeço, mas falar é realmente mais fácil que fazer. E fazer a coisa certa, a ponto de ser exemplar, é mais difícil ainda. 
Mas não é impossível. 
Eu decidi ir ao show. Comprei uma entrada inteira e paguei uma cacetada de R$ 360,00. Foi de alguma forma, minha redenção. 
Na entrada do estádio, eles nem conferiram as meias-entradas. Cheguei a pensar que eu poderia ter comprado a meia, sem carteirinha falsa, que eles nem iriam notar. Mas confesso que no meu íntimo, eu me senti orgulhosa por pagar o preço que eu realmente deveria pagar. Foi o preço da minha integridade. O preço que custa agir corretamente. O preço da consciência limpa e da mudança que quero ver no meu país. E em última instância, foi o preço de ver o Elton John fazendo um show espetacular em Goiânia.

Estou compartilhando este episódio aqui porque reclamo da bagunça generalizada do Brasil, mas reconheço uma coisa: mesmo cidadãos de bem - e assim me considero - são falhos. E nas nossas falhas nos reconhecemos humanos. 
Mas precisamos estar atentos, se não vigilantes, para não cair na vala dos que reclamam com o rabo preso, se valendo de mil justificativas para errar, quando na verdade, o acerto - e o certo - se mostram claramente e diariamente como escolhas factíveis.
E é a qualidade dessas escolhas individuais que vai determinar o caminho que a coletividade vai trilhar. 
Deu pra sentir o peso da responsabilidade, brasileiras e brasileiros?



♥  ♥  ♥ 

Comentários

  1. Falta essa coragem a milhoes de pessoas!
    Sempre fui mt certinha, desde menina, acho que nunca fiz algo errado como forjar algo, sei la...nem cd pirata tenho coragem de comprar, sou mt certinha, demais ate sabe? nao jogo papel de bala no chao nem que toda uma rua esteja podre e cheia de lixo, vai contra todos os meus principios mesmo, e se fizesse,aquilo ia ficar me torrando a cuca, me matando a consciencia...e agora morando aqui, ai que nao faco nada mesmo desse tipo. Parabens pra ti Marcinha,gostei do que li, mas vindo de ti,de fato,nao posso esperar nada de ruim, vc é um doc de coco!

    ja assisti um show dele aqui,foi mt mt mt legal!
    mas nao vale uma forjada de carteira nao ;-)

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    1. Nada vale a forjada da carteirinha, Ninoca!
      O show foi muito bonito, ele canta e toca muito.
      Um beijo minha amiga certinha! Continue assim, nada se compara à paz que sentimos quando agimos refletindo fielmente quem somos.
      Beijos

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  2. É isso ai, lindinha! Quem sabe, se de um em um, a gente chega lá? Eu, limpo a minha calçada, arrumo o meu jardim e mando o meu caseiro capinar a porta da chácara em frente a minha. Não conheço os donos, nunca os vi, mas, nem por isso, vou ficar vendo uma porta toda suja de mato todas às vezes que sair, né? Se quero um bairro bonito, tenho de contribuir de alguma forma! Se você pagou inteira, é por que, no fundo, valoriza o trabalho de alguém. Sou a favor que seja preço único. Quando solteira, organizava eventos e sei o trabalho que dá... no fim, o bolo é dividido entre muita gente... beijos, estou orgulhosa de você!

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    1. Oi Helô,
      Quando a gente passa pelos bastidores da organização - como é o seu caso - sabe o quanto é difícil fazer as coisas acontecerem. E que o trabalho deve sim ser bem remunerado.
      Estava lendo dias atrás que, em função da meia entrada, muitos empresários de shows no Brasil precificam os ingressos muito caros, exatamente em função da quantidade de "meias-entradas" que são vendidas. Inclusive para quem não deveria usar meia entrada.
      Deram um exemplo do show do Tony Bennet, um cantor da linhagem do Sinatra: 90% dos ingressos vendidos foram meia entrada... O que é uma incongruência sem precedentes, já que o público alvo do cantor é formado por pessoas mais velhas... Que não estudam mais...
      Beijos querida!

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    2. Ah Helô, parabéns pelo seu capricho, viu?

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  3. Marcita querida, você é daquelas que foi lapidada com estofo e carinho, por isso sua consciência doeu o tempo inteiro. Parabéns, que esse post seja lido por muita gente aqui dentro do país, nosso povo está inconsciente e sendo levado pelos maus exemplos. Eu, tal qual as amigas acima, também nunca fiz algo que me tirasse o sono, fui criada no tempo da gentileza e dos valores pessoais e não os desse tempo tão materialista.
    Você é demais, menina, te admiro muitáo.
    Beijo carioca

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    1. Betinha a admiração é recíproca! Obrigada pelo comentário e pelo carinho!
      Beijos

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  4. Hello Elton, do you remember me? We met two years ago in front of Würzburg Residence during your open air concert. I was the guy with the camera... ;-)

    Liebe Grüße nach Brasilien aus dem frühlingshaften Deutschland!

    Uwe.

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    1. Hallo Uwe, I didnt get the chance to ask Elton if he remembered u, but if I had had the chance, he would have said:ja!!!
      The concert was awesome!!!
      Cheers

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  5. Pois é Marcia, não adianta bater o pé e reclamar do país e da corrupção se continuarmos a cometer esses "pequenos" delitos. O pior é que, muitas vezes, quem age com honestidade é taxado de otário!!! Os honestos também pagam um preço por suas escolhas. Entretanto, ter a consciência tranquila por agir com honestidade, não há preço de meia entrada que pague. Você agiu bem! Besitos!

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    1. A questão é complicada, né Sandrinha...
      Porque estes "pequenos delitos" soam tão inofensivos, mas somados, eles se tornam grandes e consomem a moral da nossa sociedade... Temos que ficar atentas mesmo.
      Bjim

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  6. "O proibido é mais gostoso".
    Essa frase não vale nada prá mim.

    Conheço pessoas que infringem leis, regras e normas. E que mesmo sabendo que estão errados, o fazem porque todos fazem errado e porque não há punição ou conferência. Vivem bem com esse jeito de se comportar.

    Eu sou totalmente o oposto. Se existe uma regra, vou cumprir à risca. Se existe uma norma, vou seguir. E se houver uma lei, nem questionar vou. Eu me sinto péssima se descumpro uma diretriz. Se acho injusto, eu questiono, mas mesmo assim, não consigo ignorar.

    O que é errado não se torna certo porque todos estão fazendo errado.
    E olha, me sinto orgulhosa em dizer que não busco subterfúgios ou esquemas ou gambiarras para fazer nada na vida, porque isso, é justamente o que eu critico na sociedade brasileira. E nos políticos brasileiros. E se não fizermos o correto, essas atitudes pequenas viram grandes. E eu ainda acho que são as pequnas atitudes que moldam o nosso caráter e que são o nosso cartão de visita.

    Bjos! Um ótimo Carnaval.

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    Respostas
    1. Oi Juliana,
      Maravilhoso o seu comentário, a retidão de caráter que você apresenta e a intolerância com jeitinhos que acabam se tornando jeitões e justificativas.
      "O que é errado não se torna certo porque todos estão fazendo errado"
      Puxa vida, como as coisas seriam diferentes aqui se trouxéssemos para nossos quintais todos os certos que temos que fazer.
      Obrigada pelo comentário!
      Beijo
      Márcia

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  7. Marcita, é admirável o que você fez. Hipocrisia é reclamar tanto dos problemas do Brasil, meter o pau no jeitinho brasileiro e por baixo dos panos agir de acordo com esse mesmo jeitinho. É normal se sentir tentada, pois somos falhos e pecadores, mas nada é mais impagável que uma consciência tranquila como resultado do nosso bom senso falando mais alto. Espero que o show tenha sido maravilhoso. Adoro ele e pegaria sim para vê-lo cantar "Daniel" ao vivo! :)
    beijinhos

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    Respostas
    1. Amiga ele cantou Daniel!!! Foi lindio!
      Obrigada pelo comentário!!!
      Beijos

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  8. A mulher arrasa!!! Categoria!!! Marcinha, orgulhosíssima de você! O pouco que te conheço sei que você é sim uma pessoa de boa índole e que não teria paz fazer algo que pra muita gente é tão bobo! Parabéns amiga, vale a pena sim pagar o preço da integridade sempre, porque com ela, a gente coloca a cabeça no travesseiro e dorme bem TODOS OS DIAS.

    Bjos!

    Gisley Scott.

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