Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Novembro, 2015

A chuva e a matéria

Era tanto parente chegando de tudo quanto é lugar. Gente do nordeste, gente da capital, gente do interior. Todos queriam se despedir do meu avô, o velho José, um idoso de 95 anos que minguava entre a vida e a morte há algum tempo.
O Zé, assim como o seguro, morreu de velho. Bem velho. Seu coração parou de bater quando ele estava deitado, dormindo, em casa. Ele teve uma morte tranquila.  Minha avó, casada há 67 anos, ficou desnorteada, perdida, chorosa, sem referência. Antes era a Maria. Agora é a viúva do seu Zé.  E no dia do enterro do seu marido, ela era um fiapo de gente. Vi nos olhos dela não só o desalento de quem perde alguém que ama, mas principalmente o desespero de quem perde alguém que toma a maior parte do seu tempo. Ela vivia para cuidar do seu velho, para lavar suas partes - como ela mesma dizia - para preparar suas papinhas, para trocar suas fraldas e, quando a memória dele eventualmente voltava, eles conversavam. Mas conversavam pouco porque ele logo voltava para o con…

Livre-se do excesso e acesse quem você é!

Olho para minha casa hoje e vejo muitos espaços vazios.  Vejo nichos que outrora abrigavam centenas de livros e álbuns de fotografia reduzidos à brancura da laca.  Os objetos que eu vaidosamente adquiri em viagens foram descartados com critério e sem crueldade.  Roupas, sapatos, objetos de cozinha e decoração... Tudo o que possuo está sendo cuidadosamente avaliado. Traz alegria ou não? É entulho ou utilidade? Esse confronto com minhas coisitas foi instigado pela leitura do livro "A mágica da arrumação", escrito peja japonesa Marie Kondo.  Botei fé no livro porque japonês é fera em desenvolver metodologias. E não me decepcionei. Pelo contrário, me surpreendi muito pela transformação (em curso) que estou vivenciando.  O método da Mari é simples: confronte cada item que você tem, pegue, toque, pergunte a si mesmo se aquilo te traz alegria. Se não traz alegria, descarte. E depois organize o que sobrou.  Parece bobinho, truque antigo, mas funciona que é uma beleza. Fui me dando …

Um esquecimento sincero

Na Roma antiga, escultores desonestos ocultavam as imperfeições de suas obras de mármore com cera.  Sabedores dessa fraude, os escultores honestos faziam questão de ressaltar que suas estátuas eram "sine cera", ou seja, autênticas, verdadeiras, honestas.
Essa é uma das explicações da origem da palavra sincera.
A cera usada antigamente pelos escultores é facilmente aplicada no sentido metafórico, já que cada um de nós fez - ou faz cotidianamente- uso da cera para sublimar situações ou argumentos. Por vezes, justificamos o uso da cera em alicerces sentimentalistas, como se o outro não fosse capaz de compreender, ou mesmo tolerar, a verdade. Mas será que ser verdadeiro e sem cera machuca o outro tanto assim?
Passei por algumas situações recentemente que me fizeram ponderar bastante sobre a sinceridade - e o quanto ela é libertadora. Uma destas situações eu vou detalhar aqui.
Convidei um amigo muitíssimo querido para meu casamento . Não nos vemos há muito tempo, mas nossa amiza…