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A chuva e a matéria

Era tanto parente chegando de tudo quanto é lugar. Gente do nordeste, gente da capital, gente do interior. Todos queriam se despedir do meu avô, o velho José, um idoso de 95 anos que minguava entre a vida e a morte há algum tempo.
O Zé, assim como o seguro, morreu de velho. Bem velho. Seu coração parou de bater quando ele estava deitado, dormindo, em casa. Ele teve uma morte tranquila. 
Minha avó, casada há 67 anos, ficou desnorteada, perdida, chorosa, sem referência. Antes era a Maria. Agora é a viúva do seu Zé. 
E no dia do enterro do seu marido, ela era um fiapo de gente. Vi nos olhos dela não só o desalento de quem perde alguém que ama, mas principalmente o desespero de quem perde alguém que toma a maior parte do seu tempo. Ela vivia para cuidar do seu velho, para lavar suas partes - como ela mesma dizia - para preparar suas papinhas, para trocar suas fraldas e, quando a memória dele eventualmente voltava, eles conversavam. Mas conversavam pouco porque ele logo voltava para o confisco silencioso que as doenças degenerarias fizeram em suas lembranças. 
O enterro dele foi triste, como deveria ser. 
Mas o que me cortou de vez o coração não foi o enterro, e sim algo que escutei da minha avó à noite, horas depois do enterro, quando começou a chover forte na cidade. 
- Meu velho está naquele buraco escuro pegando chuva, eu não consigo parar de pensar nisso. Meu velho molhado e com frio no escuro - disse ela. 
É atordoante a constatação da minha avó; ela continua a viver sobre a terra, mas seu parceiro de décadas agora descansa debaixo dela. Molhado. No frio. E nada mudará isso. 
Levará um tempo até que minha avó pare de se incomodar com a chuva molhando a matéria que ela tocou, cuidou e tanto amou. 
Um tempo. 
Enquanto o tempo não chega, a chuva continua caindo sobre a terra. Sobre a vida de quem fica e sobre a matéria de quem se foi.


Comentários

  1. Ai Marcia fiquei com os olhos marejados com este post. Sinto pelo seu avô... mas agora ele está descansando. Viveu uma longa vida aqui na terra. Benzadeus! Se eu pudesse escolher uma forma de morrer, escolheria a que Deus deu pra ele: dormindo e em paz.
    Quanto a sua avó, não consigo imaginar o vazio que ela está sentindo... que ela encontre um alento para a saudade nos braços da família. Um abraço carinhoso e meus sentimentos.

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    1. Amém, Sandrinha!
      Avô descansando no céu e avó consolada aqui na Terra.
      Beijos e obrigada!

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  2. Tadinha da tua vó!!!!! Que Deus conforte a familia de vocês.
    Adorei a tua lista no Spotify, e saber que há mais uma fã do Eddie na mesma proporção. A letra da música é realmente um espetáculo reflexivo. Um beijo e boa semana.

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    1. Pra você também, Diário! ótima semana! Obrigada pelo comentário e que Deus proteja e conforte a todos nós!

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  3. Marcinha,
    Sinto muito e que deus conforte o coração de vocês.
    O tempo é o nosso melhor remédio.

    Eu sempre digo que não quero ser enterrada, quero ser cremada e que minhas cinzas sejam jogadas no Mar.

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    1. Dani sabe que ando pensando na cremação? Depois do episódio da chuva molhando meu avô, fiquei encucada... Melhor virar pó e servir de adubo pra roseiras.
      Você... no ar. Sua livre!!!
      Obrigada pelo comentário querida!

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    2. Ano passado eu tive a sorte de conhecer o namorado do meu sobrinho. Nao só ele como a família. Ele era transplantado e infelizmente o coração dele não aguentaria mais 10 anos.Mas isso me fez pensar em muitas coisas e o quando talvez eu deixei Deus de lado e deixei de agradecer por tudo que ele me deu, e tenho certeza que tudo o que vivi era para o meu crescimento. O Renan, era um lutador. Agradecia todos os dias, por estar mais um dia ao lado dos seus pais e pessoas que ele amava. Ele sonhava em ser um grande cabeleireiro, era dono da risada mais escandalosa, mesmo em dias de dor. Quando ele morreu foi uma dor muito grande, mas mesmo com a perda eu agradeci, pois ele só foi mais um anjo que Deus colocou em minha vida para abrir meus olhos e poder caminhar. Ele foi cremado e para se despedir dele sua mãe fez uma linda homenagem, comprou vários corações de gás para que todos soltassem em direção ao céu.. Dessa vez seu coração estava livre de dores, completamente livre!

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    3. Eu quero virar pó e seguir em direção ao horizonte!

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  4. Gente, mais de 50 anos de casado, não é brincadeira não! A maior lição que tirei desse post foi que votos de casamento a gente faz uma vez no altar, mas compromisso é um voto que precisa ser renovado todos os dias. E assim ela o fez para com o seu querido velho. O amor da sua juventude.
    Que o Senhor a conforte como ninguém pode.
    Beijos!
    Querido Deus obg por me exportar!

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    1. Amém, Gigi!
      É só Deus para confortá-la. Apesar de todo o trabalho, da canseira enorme pra cuidar do velho, ela o preferia vivo, vegetando.
      O compromisso do matrimônio, da lealdade ao parceiro até o fim, é pra poucos. Desfrutar na saúde é uma coisa... Roer o osso na doença é outra completamente diferente.
      Que nós, moças novas, tenhamos essa sabedoria quando a velhice chegar. Ou mesmo nas intempéries da vida, porque elas também fazem parte.
      Um beijo querida!

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  5. Oi, Márcia! Pois então, eu moro em Porto Alegre e até o momento não ouvimos nenhum caso por aqui... mas depois do teu relato, até estou pensando em comprar um repelente. E depois de ter visto umas 6x Jardineiro Fiel, não há nada que me faça desacreditar no teu marido e no meu pai, que também é médico. Bjos

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  6. Accept my sympathies! José, 95 and married for more than 67 years certainly had a fulfilled life. But of course his beloved wife, who has been ever together with her hubby has fallen in a sort of limbo when her significant other was gone. More or less there was no life for her without her other half, José. And grief and sorrow is what all of us would feel when being in a similliar situation. Regards from Germany, Uwe.

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  7. De tanta sensibilidade que arrebata a gente.

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  8. De tanta sensibilidade que arrebata a gente.

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