29 de nov de 2015

A chuva e a matéria

Era tanto parente chegando de tudo quanto é lugar. Gente do nordeste, gente da capital, gente do interior. Todos queriam se despedir do meu avô, o velho José, um idoso de 95 anos que minguava entre a vida e a morte há algum tempo.
O Zé, assim como o seguro, morreu de velho. Bem velho. Seu coração parou de bater quando ele estava deitado, dormindo, em casa. Ele teve uma morte tranquila. 
Minha avó, casada há 67 anos, ficou desnorteada, perdida, chorosa, sem referência. Antes era a Maria. Agora é a viúva do seu Zé. 
E no dia do enterro do seu marido, ela era um fiapo de gente. Vi nos olhos dela não só o desalento de quem perde alguém que ama, mas principalmente o desespero de quem perde alguém que toma a maior parte do seu tempo. Ela vivia para cuidar do seu velho, para lavar suas partes - como ela mesma dizia - para preparar suas papinhas, para trocar suas fraldas e, quando a memória dele eventualmente voltava, eles conversavam. Mas conversavam pouco porque ele logo voltava para o confisco silencioso que as doenças degenerarias fizeram em suas lembranças. 
O enterro dele foi triste, como deveria ser. 
Mas o que me cortou de vez o coração não foi o enterro, e sim algo que escutei da minha avó à noite, horas depois do enterro, quando começou a chover forte na cidade. 
- Meu velho está naquele buraco escuro pegando chuva, eu não consigo parar de pensar nisso. Meu velho molhado e com frio no escuro - disse ela. 
É atordoante a constatação da minha avó; ela continua a viver sobre a terra, mas seu parceiro de décadas agora descansa debaixo dela. Molhado. No frio. E nada mudará isso. 
Levará um tempo até que minha avó pare de se incomodar com a chuva molhando a matéria que ela tocou, cuidou e tanto amou. 
Um tempo. 
Enquanto o tempo não chega, a chuva continua caindo sobre a terra. Sobre a vida de quem fica e sobre a matéria de quem se foi.


12 de nov de 2015

Livre-se do excesso e acesse quem você é!

Olho para minha casa hoje e vejo muitos espaços vazios. 
Vejo nichos que outrora abrigavam centenas de livros e álbuns de fotografia reduzidos à brancura da laca. 
Os objetos que eu vaidosamente adquiri em viagens foram descartados com critério e sem crueldade. 
Roupas, sapatos, objetos de cozinha e decoração... Tudo o que possuo está sendo cuidadosamente avaliado. Traz alegria ou não? É entulho ou utilidade? 
Esse confronto com minhas coisitas foi instigado pela leitura do livro "A mágica da arrumação", escrito peja japonesa Marie Kondo. 
Botei fé no livro porque japonês é fera em desenvolver metodologias. E não me decepcionei. Pelo contrário, me surpreendi muito pela transformação (em curso) que estou vivenciando. 
O método da Mari é simples: confronte cada item que você tem, pegue, toque, pergunte a si mesmo se aquilo te traz alegria. Se não traz alegria, descarte. E depois organize o que sobrou. 
Parece bobinho, truque antigo, mas funciona que é uma beleza. Fui me dando conta, ao lidar com minhas roupas por exemplo, que acumulei muitas delas porque são bonitas ou porque foram presentes que não tive coragem de descartar. A maioria delas ficava encostada no guarda-roupas ocupando muito espaço e energia. Mas eu nunca, ou raramente as escolhia para usar, apesar da beleza ou do carinho que tinha pela pessoa que me presenteou. 
Como resultado, acumulei muitas roupas que não me davam prazer nenhum ao usá-las. Ao ler o livro, separei mais de 300 peças de roupas para doação, e algumas eu coloquei à venda na minha lojinha do Enjoei
Depois do descarte, parti para organizar o guarda-roupas, que ficou um espetáculo! Não tenho mais "caixas organizadoras", tudo está exposto porque agora SOBRA espaço! 
Lidar com fotografias, que são minha paixão, foi outra paulada na caixola. Me dei conta no processo que eu tinha um apego desmedido as memórias, as lembranças. Eu era a pessoa na família responsável pelo arquivo de fotos e vídeos, mas ao ler o livro, percebi o peso que isso me trazia! Me senti o museu ambulante em pessoa, que nunca era visitado, mas mantinha o acervo numeroso sempre organizado. 
Reduzi dezenas, quase centenas de álbuns a menos de 10 álbuns, nos quais compilei as fotos que eram realmente importantes PRA MIM. E a constatação mais interessante que tive é que a família provavelmente nem vai dar falta de todas aquelas fotos que foram jogadas no lixo... O apego maior era meu, inclusive ao fato de ser a guardiã oficial das fotos. Apego pelo apego! Que bobagem essa minha... O apego e o apego pelo apego foram pro lixo junto com as fotos. Me senti tão leve e satisfeita depois desse detox! 
A ficha que finalmente, e felizmente caiu, é que todas aquelas fotos retrataram a formação da pessoa que sou HOJE. É exatamente essa pessoa que deve ser celebrada, e não aquele entulho enorme de imagens. O que tenho é o hoje, é quem sou no momento presente. E isso é o que me interessa agora. 
Como é que eu não pensei nisso antes... Sinto que perdi tanto tempo relevando coisas irrelevantes. 
Separei alguns trechos do livro sobre lembranças para compartilhar com vocês. Vejam que interessante: 


  • Não devemos celebrar as lembranças, mas sim a pessoa que nos tornamos por causa das experiências que tivemos. Essa é a lição que os objetos de valor emocional nos ensinam quando os organizamos. O espaço em que vivemos deve se adequar à pessoa que somos agora, e não àquela que fomos um dia.


  • As memórias realmente valiosas nunca desaparecerão, nem mesmo se você se desfizer dos objetos relacionados a elas. Vivemos no presente e não podemos ficar presos no passado, não importa quanto as coisas tenham sido maravilhosas. A alegria e o entusiasmo que sentimos aqui e agora é o que interessa. Portanto, mais uma vez, a melhor maneira de escolher objetos que vai manter é segurar cada um e perguntar: "Isso me traz alegria"?

  • Vivi aqueles momentos plenamente e fui capaz de agradecer a eles pela alegria que me proporcionaram na época. Ao manusear cada item de valor sentimental e decidir o que descartar, você processa seu passado.




Vai ficando claro, no decorrer do livro, que menos é mais. Estou reduzindo meus pertences dia após dia... E para meu espanto (e felicidade) não sinto falta de ABSOLUTAMENTE NADA que doei/descartei. Já foram embora mais de 20 sacos de 100 litros... Êta energia que estava parada!
O livro "A mágica da Arrumação" é fenômeno de vendas no mundo inteiro. Desejo que mais e mais pessoas leiam esse livro para que elas, assim como eu, façam contato com sua essência, com seus valores mais fundamentais, e, como consequência, mudem de forma definitiva sua relação com o consumo. 
Depois de reduzir tanto, é impossível voltar ao estágio original. Dar-se conta que viver com menos é viver melhor é fantástico, é libertador. Isso muda vidas!
Alguém aí tem interesse em ler esse livro? Interesse de verdade verdadeira?
Caso sim, deixe um comentário. Se houver mais de uma interessada, farei um sorteio. Vale para quem mora em qualquer lugar do mundo. 
Será meu presente de Natal a você e minha pequena contribuição para um mundo mais iluminado. 
Sorteio dia 30/11 para o livro chegar a tempo do Natal ;)
Bjocks


♥  ♥  

3 de nov de 2015

Um esquecimento sincero

Na Roma antiga, escultores desonestos ocultavam as imperfeições de suas obras de mármore com cera. 
Sabedores dessa fraude, os escultores honestos faziam questão de ressaltar que suas estátuas eram "sine cera", ou seja, autênticas, verdadeiras, honestas.
Essa é uma das explicações da origem da palavra sincera.
A cera usada antigamente pelos escultores é facilmente aplicada no sentido metafórico, já que cada um de nós fez - ou faz cotidianamente- uso da cera para sublimar situações ou argumentos.
Por vezes, justificamos o uso da cera em alicerces sentimentalistas, como se o outro não fosse capaz de compreender, ou mesmo tolerar, a verdade. Mas será que ser verdadeiro e sem cera machuca o outro tanto assim?
Passei por algumas situações recentemente que me fizeram ponderar bastante sobre a sinceridade - e o quanto ela é libertadora. Uma destas situações eu vou detalhar aqui.
Convidei um amigo muitíssimo querido para meu casamento . Não nos vemos há muito tempo, mas nossa amizade independe do contato frequente e segue firme há vários anos. Mandei o convite do casamento pelos Correios e depois de um tempo mandei uma mensagem perguntando se ele tinha recebido o convite (no Brasil tudo pode acontecer com correspondências, por isso é prudente verificar). Ele confirmou o recebimento e também a presença.
Foi chegando o dia do casamento e nada de ter notícias desse amigo... Nenhum questionamento sobre hotéis, restaurantes, vôos... Entendi esse silêncio como um indicativo de que ele não viria, só que no meu íntimo eu tinha a sensação de que ele e a esposa me surpreenderiam no dia.
Mas isso não aconteceu.
Passadas algumas semanas, o amigo me liga. Me perguntou da lua de mel, da vida, e perguntou se poderia ser sincero.
- Opa, claro! Sempre! - respondi.
- Então Márcia, eu não fui ao seu casamento porque me esqueci.
Minha primeira reação foi ficar em silêncio e a segunda foi rir, bem alto. Não do esquecimento em si, mas da explicação incontestavelmente sincera que ele me deu. Foi tão sincera que soou hilária.
Ao contrário desse amigo, muitos convidados que não compareceram nos deram explicações abarrotadas de cera...
O uso de desculpas e mentirinhas cria anomalias nas relações, porque um finge que convence e o outro finge que é convencido. Daí as coisas degringolam, porque não estão fundadas em bases coerentes.
Não é mais fácil e mais libertador simplesmente falar a verdade, como fez esse amigo meu?
Eu estou convencida que sim.
E você?



♥  ♥