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O valor das moedinhas

Em retrospecto, todos os domingos da minha infância parecem iguais.
A mãe preparava iguarias na cozinha. Minha irmã e eu escalávamos a goiabeira, nossa grande nave espacial. Já o pai ouvia música sertaneja sentado ao pé da radiola.
Quando nos aproximávamos do almoço, eu sabia, e ansiava, pelo pedido que meu pai sempre me fazia:
- Filha, vá a lanchonete comprar uma cerveja pro Papai!
- Bem gelada, filha. – insistia ele, com a voz branda.
- Traga o troco! – finalizava ele, com o tom da voz notoriamente mais alto, mais sério, demandador.
Me dava até um medinho quando eu pegava a nota de dinheiro da mão dele. Mas eu não deixava o medo transparecer, afinal de contas, eu era uma astronauta de goiabeira, acostumada a inúmeros desafios.
Eu apertava a nota no punho já cerrado, primeiro para senti-la, depois para assegurar-me que a nota não escaparia entre meus dedos, e caminhava ligeiro rumo a lanchonete. Dois minutos depois, eu estava lá. Era sempre um alívio abrir o punho e ver a nota ali na bancada, molhada de suor e reduzida a um décimo do seu tamanho original.
O atendente da lanchonete pegava a nota amassada na bancada, a colocava numa gaveta e depois mergulhava metade do seu corpo dentro do freezer, se esforçando para alcançar a cerveja mais gelada entre as geladas. O mergulho que eu fazia paralelamente era visual, já que meu olhar passeava alegremente pelos picolés, pelos pirulitos, pelos chicletes e balinhas. Havia tanta coisa gostosa que eu podia comprar com as moedinhas que sempre sobravam!
Balinhas e mais balinhas! Eu sonhava.
Traga o troco! Meu pai ordenava.
Apesar de muito nova, eu entendia o comando dele e as entrelinhas. Trazer o troco para o meu pai significava devolver todo o dinheiro que o atendente da lanchonete me entregava, sem nenhuma balinha a mais, sem nenhuma moedinha a menos. Eu tinha esse dever moral, entende? Eu precisava fazer tudo certinho para conseguir dormir à noite sem pesadelos. E não tinha balinha na face da Terra mais importante do que conseguir dormir sem pesadelos.
Os mesmos dois minutos que me levavam de casa à lanchonete, me traziam da lanchonete para casa. Com a diferença de que, na volta para casa, eu tinha que apertar uma porção de moedas numa mão, com a pressão equivalente ao medo que elas caíssem, e na outra mão, eu apertava uma garrafa de cerveja muito gelada.
- Aqui Pai! A cerveja gelada e o troco! – eu dizia, aliviada.
Meu Pai pegava a cerveja, olhava as moedinhas, olhava para mim, e sorria. Até hoje eu não sei dizer se a maior alegria dele era ver a cerveja gelada, o troco ou a filha.
Eu só sei que, todas as vezes que eu executava essa tarefa, em todos os domingos da minha infância, meu Pai me abraçava e na sequência e dizia:
- Agora fique com todo o troco minha filha!
Adivinha pra onde eu voltava...


Comentários

  1. Valores se aprende, e sao incutidos na gente, na infância, nao? Adorei sua história!
    Beijocas, e boa semana, Angie
    P.S. Eu também tinha minha nave espacial e meu lounge de leitura (uma bergamoteira que tinha os troncos em formato de poltrona - perfeito para uma tarde de leitura comendo bergamota, hihihi).

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    Respostas
    1. Eita Angie, essa sua poltrona era top de linha! Fomentava a leitura e a alimentação saudável :)
      Valores são ensinados na infância, consolidados na adolescência e desfrutados durante a vida inteira :)
      Beijos querida!

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  2. Amei esse post Marcinha! Como comentei no zap, passou um filme na minha cabeça. Pude até visualizar você indo até a lanchonete comprar a cerveja e voltar segurando o troco como se fosse tudo de mais importante. Eu te vi porque isso era o que eu fazia também. A diferença é que ia na bodega, como falamos lá no nordeste pra um mercado pequeno, comprar cigarro pro meu pai. Nem sempre ele me dava o troco, até porque numa família de seis filhos eu não poderia ser uma privilegiada, mas sei que ele apreciava o fato de eu voltar com as moedas certinhas!
    Lindo o post, lindas memórias!
    beijos

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    Respostas
    1. Olá querida! Então tinhamos a lanchonete e a bodega em comum, moedinhas indo e vindo e um troco de quando em vez.
      Essas "meninices" marcam muito, e por mais banais que soem, elas constroem significados importantes.
      Um beijo e obrigada pelo comentário!

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  3. Oi, tudo bem, Márcia?

    Long time no see and not hear, dear friend!

    This year the German winter has not finished yet - we still have temperatures around or slightly above 0°C - and every now and then some sunshine to take the first harbingers of spring. Because of the very warm December and January the bloosoms of the almond trees flourished already around (!) Christmas 2015!!! The general blooming period for these kind of trees in Germany is between March and April. So - what's normal nowadays in the era of global warming???
    All the best from your favourite country (outside Brazil!)
    Uwe.

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    Respostas
    1. My friend,
      Global warming is showing its friendnly face at first. God only knows what will come... It makes me a bit nervous cause I live an endless summer in Brazil, will I be toasted when temperatures boost? I guess so!
      Hey hey hey, in a couple of days Husbby and I will fly to my favorite country outside Brasil! My excuse this time: buying HARIBO PASTA BASTA. ha ha ha. I cant wait to see spring in Deutschland :)
      Cheers lieber Uwe!

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  4. Adorei a história! São coisas pequenas assim, que ficam para sempre na memória :)

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  5. Adorei a história! São coisas pequenas assim, que ficam para sempre na memória :)

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  6. Memórias de infância!
    Adorei sua recordação.
    Beijos amada!

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