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Nem sempre acaba bem...

O dia tinha sido maravilhoso em Ghent, com sol a pino e muito bate perna. Já passava das dezoito horas quando eu e minhas duas amigas fomos acometidas pelo dilema do turista que quer aproveitar ao máximo as 24 horas do dia, mas o corpo já está berrando: banho e cama!!! 
Decidimos entrar num lugar sossegado para uma saideira ligeira acompanhada por algum petisco, que na Bélgica poderia ser uma bela porção de batatas fritas. 
Encontramos um bar bacaninha, meio escondido e vazio, que parecia a pedida perfeita para encerrar o dia. 
Pedi uma taça do vinho da casa (pavoroso de ruim!), enquanto as amigas se deliciavam com suas cervejas belgas. Entre goles e batatas, jogamos conversa fora e planejamos o dia seguinte, tudo na maior paz. 
Só que a paz - tanto a nossa quanto a do ambiente - foi para as cucuias no momento em que o bar foi invadido por uma manada de homens barulhentos e bêbados. Pelo sotaque, supus que eram ingleses. E pelo estado deplorável em que estavam, supus que se tratava de uma despedida de solteiro. 
Alerta vermelho. 
Ficamos de cabelo em pé, mas já estávamos sentadas, com bebida e comida servida. O jeito foi continuar ali e torcer pra não sermos incomodadas, afinal de contas, aquilo era a Zoropa, certo? Lugar de gente civilizada.
#SQN 1
Um dos homens, encorajado por palmas e muitos incentivos dos demais, veio em nossa direção com uma rosa nas mãos. Nem eu nem minhas amigas fizemos contato visual com ele, continuamos olhando umas para as outras ignorando completamente o babaca supostamente inglês. Mas já viu, homem bêbado fica macho além da conta... Então o homem chegou ainda mais perto da nossa mesa e colocou a rosa entre os dentes, para que uma de nós a pegasse. 
Continuamos ignorando o idiota, que ao invés de receber palmas encorajadoras de seus pares, passou a receber vaias e se tornou o alvo de chacota. Problema dele, quem manda mexer com quem não tá afim de entrar na brincadeira. 
Como um reflexo para aliviar a tensão, dei uns bons goles no vinho, que continuava ruim, mas passou a descer redondo. Ainda faltava muito para secar a taça e as canecas de cerveja das meninas ainda estavam pela metade. Mas como estávamos em alerta, combinamos de finalizar as bebidas rapidamente e colocar a maior distância possível entre nós e aqueles bêbados. 
As palmas e os gritos surgiram novamente e soubemos instintivamente que um segundo babaca iria aparecer. Mais ousado que o primeiro, ele veio sem camisa e parecia um pimentão depenado. Se ajoelhou na minha frente, como se fosse me pedir em casamento, e me ofereceu a rosa. Olhei para as meninas, assustada, mas determinada a colocar um ponto final naquela brincadeira estúpida. 
Na minha cabeça, havia só um jeito de parar com aquilo: pegar a rosa. Caso contrário, apareceria outro homem, mais outro, e só Deus sabe: se o segundo veio sem camisa, o terceiro viria sem o que? Perguntei para as meninas: o que eu faço? Ambas disseram, confirmando minha estretágia: - pega a rosa e acaba logo com isso.
Peguei a rosa sem sorrir nem esboçar qualquer encanto com aquela brincadeira. Mas só o ato de aceitar a rosa do segundo bêbado fez com que os demais gritassem e o aplaudissem como se o time de futebol deles tivesse feito o gol mais bonito da temporada. 
Pelo menos nos livramos deles. 
#SQN 2
O primeiro bêbado, o ignorado, ficou macho. Veio tirar satisfação comigo. Ele foi ovacionado, a turma achou o ultraje dele muito divertido. Ora, como é que eu pude rejeitar a rosa dele e aceitar a rosa do segundo homem?
Aquilo já tinha passado dos limites, mas com bêbado não se discute. 
Resumi minha frustração dizendo: 
- Just leave us alone (Deixe-nos em paz). 
Todos eles gargalharam de uma maneira muito debochada. Toma, sexo frágil! Pegamos nossas bolsas e nos dirigimos ao garçom para acertar as bebidas e sair do bar.
Esse episódio aconteceu ano passado, numa viagem que fiz com duas amigas muito queridas a Bélgica. Lembro que nos sentimos muito frustradas e humilhadas. Tínhamos o direito de não querer participar daquela brincadeira, de querer o nosso espaço respeitado, mas eramos 3 mulheres (visivelmente não belgas, é importante salientar isso), sóbrias contra uns 15 homens bêbados, e não precisa ser um gênio pra intuir que essa equação é problemática.
Três mulheres íntegras finalizando um dia de passeios num bar. E um bando de babacas bêbados estragando esse momento nosso, tão nosso, de jogar conversa fora bebericando vinho ruim, cerveja boa e comendo batatas fritas.  
Já se passou tanto tempo desde que esse episódio chato aconteceu, mas até hoje eu me vejo dando vários finais diferentes a ele. 
Num dos finais eu pego a rosa da boca do bêbado, a jogo no chão e grito - Fucking asshole! Shame on you. 
No outro final o garçom intercede pelas donzelas e pede para que os bêbados barulhentos se retirem do bar (bem impossível esse final, já que eles estavam lá pra beber e o garçom pra faturar...). 
No outro final eu falo alemão com o primeiro bêbado, falo em alto e forte tom, e ele se sente diminuído pela minha inteligência autoritária. O segundo bêdado nem beira, pois quem fala alemão tem superpoderes... 
São tantos os finais diferentes que minha mente dá àquele episódio... Você também já deve ter passado por algumas situações cujos finais poderiam ser outros, bem melhores (pra você, óbvio), mas essa clareza do que fazer geralmente vem depois que o episódio aconteceu. 
Por mais que a mente insista em dar desfechos novos e gloriosos aos episódios vividos, o que nos sobra são os desfechos reais e, por vezes, patéticos que conseguimos dar quando as situações aconteceram. 
No nosso caso, o desfecho patético foi sairmos do bar ao som das gargalhadas de um bando de bêbados idiotas, nos sentindo bem mal. 
Ainda bem que tivemos outros dias na viagem bem mais agradáveis e felizes :)
E você, se lembra de alguma situação cujo desfecho você mudaria? Conta conta!





Comentários

  1. No meu final eu virava ninja e saia dando golpes mortais nesse bando de pinguço. Semana passada eu e mais 3 amigas fizemos um cruzeiro juntas e passamos por situações parecidas. E o que mais me chamou a atenção é que esses bêbados insistentes chegam de uma forma como nós mulheres fossemos um nada ... e pior ainda se for estrangeira

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    Respostas
    1. Gostei do seu final, Renata :) Porrada ninja nos bêbados.
      Infelizmente ser estrangeira só agrava o quadro... Tenho a sensação de que, no nosso caso, se fossemos loiras e aparentemente belgas, esses idiotas teriam se segurado dentro das calças.
      É um preconceito velado, como se fossemos disponíveis. Pensando nesse viés, odeio cada um daqueles bêbados ainda mais.
      Bjocks

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  2. Já não gosto de beber imagina ter que aguentar homem bêbedo?
    Enquanto lia eu tinha vontade de pegar o vinho e jogar na cara deles.
    rs!

    Beijos amada

    ResponderExcluir
  3. Já não gosto de beber imagina ter que aguentar homem bêbedo?
    Enquanto lia eu tinha vontade de pegar o vinho e jogar na cara deles.
    rs!

    Beijos amada

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  4. Hallo Márcia!

    Wie sind die Olympischen Spiele in deinem Heimatland? Bist du dabei!?!?!

    It's time to say good bye on this platform!
    I'm going to quit blogger.com after allmost 10 years and will look for new and better challenges / platforms for my photographs!

    All the best for you and your loved ones from Germany,

    Uwe.

    ResponderExcluir

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