2 de nov de 2016

Um vestido de várias noivas

O dia do casamento envolve inúmeras escolhas. A principal delas, claro, é a escolha do parceiro ou da parceira.
Partindo do princípio que essa escolha foi acertada, e melhor ainda, abençoada, seguimos para outras escolhas que são muito reparadas pelos convidados: a decoração da igreja e da festa, a comida, bebida, a alegria dos noivos e o vestido da noiva.
Essa indumentária sempre dá o que falar e é um dos itens mais esperados no grande dia.
Da perspectiva da noiva, escolher um vestido para usar no dia do casamento é uma grande responsabilidade, nem tanto pelo escrutínio de outrem, mas pela simbologia que esta roupa carrega. É usando esse determinado vestido que a noiva vai flutuar por um dos dias mais especiais da sua vida. É usando esse determinado vestido que ela entra na igreja, recebe o esposo, festeja com seus convidados. É esse vestido que vai se eternizar nas fotografias e filmagem... Então que seja um belo de um vestido.
No entanto, o belo é relativo. O que eu considero alta costura, você pode considerar um lixo. O que você considera bonito, eu posso considerar como mau gosto... Por isso a noiva precisa escolher um vestido que atenda seus próprios critérios de beleza. No meu caso, também considerei critérios de funcionalidade, já que eu não quis, de jeito algum, ficar com movimentos "engessados" por causa de um vestido muito pesado ou com mangas.
Comprei meu vestido e véu já prontos nos EUA numa viagem que fiz com minha mãe. Foi um momento muito especial de mãe e filha e me lembro com muito carinho dessa fase. Optei por um vestido do estilista Elie Saab, sem brilho nem volume, mas com todas as flores que eu tinha direito. Eu quis um vestido simples e atemporal, que daqui ha 20 anos, quando eu olhar no álbum de casamento, me pareça bonito e elegante. Encontrei esse vestido e, quando o  experimentei, tive a certeza de que aquele era o TAL vestido.
Trouxemos o belo-cujo na bagagem de mão e em setembro de 2015, chegou o dia de finalmente usá-lo.
Aqui no Brasil, fazemos o teste de maquiagem, o teste de cabelo, o teste do vestido... Mas esses testes geralmente não acontecem concomitantemente. É só no dia do casamento mesmo que conseguimos juntar o resultado de todos os testes, ou melhor dizendo, de todas escolhas, para então nos depararmos com uma imagem inesquecível: a noiva e suas escolhas refletidas no espelho.
Me senti orgulhosa da noiva que vi refletida. Vi nos meus olhos o brilho que não existia no vestido. Vi na renda do vestido as flores que existem na minha essência. Vi, na ausência das mangas e do volume, a liberdade de movimento que almejei no dia do meu casamento. Em suma, me vi como a noiva que sempre sonhei ser. 
Depois do casamento veio a lua de mel, a arrumação da casa, a convivência com o esposo. Novas alegrias foram entrando em cena e o dia do casamento ficou na memória como aquele dia especial e inesquecível, mas que ficou no passado.
Pelo menos pra mim foi assim. Conheço ex-noivas que mesmo depois de anos de casadas, ainda estão paradas no dia do casamento. Felizmente eu segui com a vida e estou muito feliz com o maridão. 
E o que fazer com o vestido de noiva?
Bem, o coloquei juntamente com o véu e o sapato numa caixa bem bonita e guardei. 
Até que uma conhecida minha, que estava no meu casamento, me ligou perguntando se eu alugaria/venderia o meu vestido. Ela iria se casar na igreja e gostou muito do modelo que usei. 
Porque não?
Acabei emprestando não só o vestido como também o véu e o sapato, que couberam perfeitamente nela. Não cobrei um centavo pelo empréstimo - eu sabia que o orçamento dela estava super curto -   mas ganhei dela, que é uma super maquiadora, 10 maquiagens para usar durante 1 ano.
Dessa forma, o vestido ganhou outra noiva, e todo mundo ficou feliz. Sei que esse empréstimo fez diferença pra ela. E a gratidão dela me deixou muito feliz. Infelizmente não tenho fotos dessa noiva, mas ela estava deslumbrante usando o meu, melhor, o NOSSO vestido.
Meses depois, um amigo do meu esposo ficou noivo. Acabei ficando muito próxima da noiva dele, que é uma fofa, e conversa vai conversa vem, entramos no assunto do vestido. Ela me disse que queria se casar ao pôr-do-sol e queria um vestido sem manga, bem simples. 
Eu falei pra ela:
- Hum... tô achando que já arrumei um vestido pra você. 
Não deu outra!!! Ela veio até a nossa casa, experimentou o vestido e ficou maravilhosa. Seriam necessários somente alguns ajustes na cintura, nada que uma boa costureira não conseguisse fazer.
Ela me perguntou o valor do aluguel e eu disse a ela que há trocas no mundo que não se pagam com dinheiro. Ela também levou o véu e a sandália, que parece até ter tamanho universal, pois coube em mim e nas duas outras noivas que a usaram :)
Eis aqui a terceira noiva que usou o meu, o NOSSO vestido. Linda demais não é?
Fomos ao casamento deles, que foi gracioso em cada detalhe, e não contive minha emoção ao ver outra noiva feliz usando este vestido.
Nessa altura da minha vida, não consigo extrair significado nos apegos. Pelo contrário, encontro muito significado em desapegos. Tenho me questionado muito sobre a necessidade de consumir, de acumular, de guardar para si coisas que podem tocar outras pessoas. E quanto mais me questiono, mas vontade eu tenho de deixar a energia fluir para outros cantos, seja através de um vestido de noiva ou de um simples livro.
Veja bem, eu não saio emprestando o vestido de noiva para qualquer pessoa, mas eu fui tocada por essas duas mulheres batalhadoras. Elas me pediram algo que eu tenho, e que está guardado numa caixa sem nenhum uso. É claro que esse vestido de noiva tem enorme significado pra mim, mas porque não deixar que ele tenha significado para outras mulheres queridas também? O que, além de um apego mesquinho, me impediria?
Nada... Nada mesmo. E confesso: o que eu recebi delas em troca - gratidão genuína e carinho - foi muito maior do que o vestido que emprestei.
Depois da cerimônia religiosa, essa noiva linda da foto me pegou pelas mãos e me apresentou à sua mãe.
- Mãe, essa é a Márcia que me emprestou o vestido dela. - disse a noivinha.
A mãe dela me deu um abraço muito apertado e se emocionou, e eu me emocionei de tabela. Ela me agradeceu muito por oferecer à filha dela algo que ela não pôde oferecer, pois o orçamento dela estava muito apertado, e profetizou tantas maravilhas na minha vida, tantas bençãos e tanta energia boa que eu fiquei até zonza de ouvir aquele volume de positividade  e bençãos.
- Amém, amém, amém - eu dizia.
Foi só um vestido, um véu e um par de sapatos em troca de tantos sentimentos nobres.
Qual é o real valor das coisas, se não tocamos as pessoas?
E você, emprestaria seu vestido de noiva?
Conta aí!
Beijo
Márcia

"O mais importante é a intenção que há por trás de dar e receber. A intenção deve ser a de provocar alegria em que dá e em quem recebe, porque a felicidade é sustentadora e provedora de vida. Por isso, ela acrescenta. O retorno é diretamente proporcional ao volume doado, quando é feito de forma incondicional e sincera. É por esse motivo que o ato de dar tem de ser prazeroso. A intenção por trás deste ato deve ser a do prazer de simplesmente dar. Só então a energia acumulada no ato de dar multiplica-se muitas vezes"

~ Deepak Chopra

11 comentários:

  1. Ai Márcia, que post lindo! Fiquei emocionada ao lê-lo. Sim realmente tem coisas que não se pagam com dinheiro, aliás, $$$$ fica para um segundo plano quando gestos "simples" como esse transforma a vida de pessoas. Tenho pensando muito nisso... porque afinal o que conta nessa vida são as PESSOAS e o que recebemos delas e não as COISAS que podemos conseguir delas. Imagine a felicidade dessas noivinhas ao encontrar O vestido para um dia tão especial e usado por alguém tão generosa como você :-). Felicidades para as três noivas!! Es lebe die Liebe!! Bjs

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  2. Ah, o vestido é realmente lindo! Simples, de bom gosto e muito, muito elegante.

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  3. O vestido é giro... eu não sei se emprestaria...

    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  4. O vestido é lindo, mas ainda mais linda é a felicidade que ele deu às noivas num dia muito especial. Acho que foi uma oferta muito generosa e um gesto muito nobre da sua parte. Beijos!

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  5. O vestido é lindo, sem duvida que casaria com um vestido assim :)

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  6. "há trocas no mundo que não se pagam com dinheiro": isso é tão a Márcia que conheci pessoalmente! Eu não espero nada de você além de atitudes como essa! Eu sem dúvidas emprestaria o meu vestido a uma pessoa que fosse trazer uma história especial pra ele. Linda a sua forma de pensar querida, inspiradora mesmo!
    beijos <3

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  7. Que história, hein? Partilhar é ampliar o merecimento que se tem de algo. Gesto belo, nobre e encantador!

    beijo,
    Germana

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  8. Márcia, você é uma queridona!!!!
    Beijo grande,
    Angie

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Márcia Cobar é outro nível, queredeeeeenhaaaas!!!!Achei muito nobre a sua atitude. As pessoas ficam tão apegadas a certos objetos como parte da personalidade delas que esquecem DE SER. E você, mais uma vez, foi! Tiro o chapéu e aplaudo de pé! Não estou surpresa que Deus tem te abençoado no financeiro, porque vc passa a bênção adiante, ao invés de ficar pra você! Quanto mais a gente compartilha bênçãos, mais fica claro pra Ele que estamos prontos para lidar com bênçãos maiores que nós!
    Mais lições, por favor!
    Beijos!
    www.vivendolaforanoseua.blogspot.com

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  11. Ahh que coisa mais linda de se fazer! Só podia ter vindo de ti tal ato, Marcinha!

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