28 de fev de 2016

O valor das moedinhas

Em retrospecto, todos os domingos da minha infância parecem iguais.
A mãe preparava iguarias na cozinha. Minha irmã e eu escalávamos a goiabeira, nossa grande nave espacial. Já o pai ouvia música sertaneja sentado ao pé da radiola.
Quando nos aproximávamos do almoço, eu sabia, e ansiava, pelo pedido que meu pai sempre me fazia:
- Filha, vá a lanchonete comprar uma cerveja pro Papai!
- Bem gelada, filha. – insistia ele, com a voz branda.
- Traga o troco! – finalizava ele, com o tom da voz notoriamente mais alto, mais sério, demandador.
Me dava até um medinho quando eu pegava a nota de dinheiro da mão dele. Mas eu não deixava o medo transparecer, afinal de contas, eu era uma astronauta de goiabeira, acostumada a inúmeros desafios.
Eu apertava a nota no punho já cerrado, primeiro para senti-la, depois para assegurar-me que a nota não escaparia entre meus dedos, e caminhava ligeiro rumo a lanchonete. Dois minutos depois, eu estava lá. Era sempre um alívio abrir o punho e ver a nota ali na bancada, molhada de suor e reduzida a um décimo do seu tamanho original.
O atendente da lanchonete pegava a nota amassada na bancada, a colocava numa gaveta e depois mergulhava metade do seu corpo dentro do freezer, se esforçando para alcançar a cerveja mais gelada entre as geladas. O mergulho que eu fazia paralelamente era visual, já que meu olhar passeava alegremente pelos picolés, pelos pirulitos, pelos chicletes e balinhas. Havia tanta coisa gostosa que eu podia comprar com as moedinhas que sempre sobravam!
Balinhas e mais balinhas! Eu sonhava.
Traga o troco! Meu pai ordenava.
Apesar de muito nova, eu entendia o comando dele e as entrelinhas. Trazer o troco para o meu pai significava devolver todo o dinheiro que o atendente da lanchonete me entregava, sem nenhuma balinha a mais, sem nenhuma moedinha a menos. Eu tinha esse dever moral, entende? Eu precisava fazer tudo certinho para conseguir dormir à noite sem pesadelos. E não tinha balinha na face da Terra mais importante do que conseguir dormir sem pesadelos.
Os mesmos dois minutos que me levavam de casa à lanchonete, me traziam da lanchonete para casa. Com a diferença de que, na volta para casa, eu tinha que apertar uma porção de moedas numa mão, com a pressão equivalente ao medo que elas caíssem, e na outra mão, eu apertava uma garrafa de cerveja muito gelada.
- Aqui Pai! A cerveja gelada e o troco! – eu dizia, aliviada.
Meu Pai pegava a cerveja, olhava as moedinhas, olhava para mim, e sorria. Até hoje eu não sei dizer se a maior alegria dele era ver a cerveja gelada, o troco ou a filha.
Eu só sei que, todas as vezes que eu executava essa tarefa, em todos os domingos da minha infância, meu Pai me abraçava e na sequência e dizia:
- Agora fique com todo o troco minha filha!
Adivinha pra onde eu voltava...