20 de nov de 2016

Su casa, mi casa?

Apartamento que eu e maridão alugamos na Alemanha pelo AIRBNB
A tecnologia tem feito maravilhas pelo turismo. Os avanços vão de sites que buscam passagens e hotéis com os melhores preços até plataformas que ligam proprietários de imóveis a locatários de curtíssima estadia, de forma bem descomplicada. 
Além do avanço tecnológico, há o avanço cultural, tanto para quem abre as portas de casa para receber um estranho, quanto para quem embarca na experiência de se hospedar na casa de outra pessoa, igualmente estranha, mas parcialmente decifrável pelas referências encontradas nos sites.
Esses avanços refletem as faces da economia do compartilhamento e colaboração (peer-to-peer), que enfatiza o uso, e não a posse, seja de bens, espaços ou serviços. 
A indústria da hospedagem está sofrendo uma revolução tão abrupta na era da economia do compartilhamento que, atualmente, o Air ABNB, -plataforma que conecta quem tem um espaço pra locar a quem busca um espaço - vale 10 bilhões de dólares, mais do que a estabelecida rede de hotéis Hyatt. Detalhe: o AIR BNB não possui um imóvel sequer.
Hospedar-se pelo Air BNB ou Nestpick é geralmente mais barato do que se hospedar em um hotel tradicional. Mas não é somente a questão financeira que tem levado mais e mais pessoas a buscarem essa opção de hospedagem. O ingrediente que tem feito a cabeça da turma é a tal da "experiência". 
É de conhecimento notório que hotéis são incrivelmente práticos, mas extremamente frios, no sentido da interação com os locais. Já se hospedar na casa de alguém envolve muita interação. Desde a troca de e-mails e mensagens até o real téte-a-téte, quando se chega no imóvel alugado. 
Já me hospedei pelo AIR BNB em vários lugares. Na foto abaixo, estava em Ghent, Bélgica, com duas grandes amigas. 
Esse cafofo saiu baratinho, mas uma de nós teve que dormir no sofá, já que só havia uma cama. E quando chegamos, o apartamento não estava limpo, tinha até cabelo no chão do banheiro, e o dono deixou a chave ao ap numa farmácia, pois que ele tinha viajado no dia em que chegamos. Nem tudo são flores no mundo dos imóveis compartilhados... 
Mas essas viajantes bem humoradas conseguiram ver o lado bom do cafofo do cascão kkk. Ah como é bom viajar com amigas. Tudo é alegria!
Nem sempre acontece a interação com o (a) dono do imóvel, mas em todas as vezes que me hospedei pelo AIR BNB, me senti mais "em casa", e mais envolvida com a cidade. 
Cada anfitrião tem uma característica, esse belga era meio nojentinho, mas a anfitriã do imóvel de Munique era uma alemã linda e fofa que nos recebeu com uma torta de morangos deliciosa e tinha um cartão fofíssimo de boas vindas nos esperando. Eu sou meio fofa também, e levei pra ela do Brasil uma caixa de sabonetes da Natura com ativos da Amazônia. E quando saímos do apartamento, deixei um bouquet de tulipas para ela. 
Além das hospedagens citadas acima, também usei o Air BNB pra ficar em Miami, Amsterdã, e a próxima estadia será em Toronto, Canadá. 
Salvo alguns perrengues, eu acho o maior barato ficar em apartamentos alugados pelo AIR BNB. Economizo na hospedagem e me sinto uma cidadã emprestada em cada destino que visito.
O que você acha dessa tendência de hospedagens? Já ficou em algum apartamento alugado através de plataformas digitais? Ou prefere os hotéis tradicionais?
Conta, conta!
Márcia
♥  ♥  

2 de nov de 2016

Um vestido de várias noivas

O dia do casamento envolve inúmeras escolhas. A principal delas, claro, é a escolha do parceiro ou da parceira.
Partindo do princípio que essa escolha foi acertada, e melhor ainda, abençoada, seguimos para outras escolhas que são muito reparadas pelos convidados: a decoração da igreja e da festa, a comida, bebida, a alegria dos noivos e o vestido da noiva.
Essa indumentária sempre dá o que falar e é um dos itens mais esperados no grande dia.
Da perspectiva da noiva, escolher um vestido para usar no dia do casamento é uma grande responsabilidade, nem tanto pelo escrutínio de outrem, mas pela simbologia que esta roupa carrega. É usando esse determinado vestido que a noiva vai flutuar por um dos dias mais especiais da sua vida. É usando esse determinado vestido que ela entra na igreja, recebe o esposo, festeja com seus convidados. É esse vestido que vai se eternizar nas fotografias e filmagem... Então que seja um belo de um vestido.
No entanto, o belo é relativo. O que eu considero alta costura, você pode considerar um lixo. O que você considera bonito, eu posso considerar como mau gosto... Por isso a noiva precisa escolher um vestido que atenda seus próprios critérios de beleza. No meu caso, também considerei critérios de funcionalidade, já que eu não quis, de jeito algum, ficar com movimentos "engessados" por causa de um vestido muito pesado ou com mangas.
Comprei meu vestido e véu já prontos nos EUA numa viagem que fiz com minha mãe. Foi um momento muito especial de mãe e filha e me lembro com muito carinho dessa fase. Optei por um vestido do estilista Elie Saab, sem brilho nem volume, mas com todas as flores que eu tinha direito. Eu quis um vestido simples e atemporal, que daqui ha 20 anos, quando eu olhar no álbum de casamento, me pareça bonito e elegante. Encontrei esse vestido e, quando o  experimentei, tive a certeza de que aquele era o TAL vestido.
Trouxemos o belo-cujo na bagagem de mão e em setembro de 2015, chegou o dia de finalmente usá-lo.
Aqui no Brasil, fazemos o teste de maquiagem, o teste de cabelo, o teste do vestido... Mas esses testes geralmente não acontecem concomitantemente. É só no dia do casamento mesmo que conseguimos juntar o resultado de todos os testes, ou melhor dizendo, de todas escolhas, para então nos depararmos com uma imagem inesquecível: a noiva e suas escolhas refletidas no espelho.
Me senti orgulhosa da noiva que vi refletida. Vi nos meus olhos o brilho que não existia no vestido. Vi na renda do vestido as flores que existem na minha essência. Vi, na ausência das mangas e do volume, a liberdade de movimento que almejei no dia do meu casamento. Em suma, me vi como a noiva que sempre sonhei ser. 
Depois do casamento veio a lua de mel, a arrumação da casa, a convivência com o esposo. Novas alegrias foram entrando em cena e o dia do casamento ficou na memória como aquele dia especial e inesquecível, mas que ficou no passado.
Pelo menos pra mim foi assim. Conheço ex-noivas que mesmo depois de anos de casadas, ainda estão paradas no dia do casamento. Felizmente eu segui com a vida e estou muito feliz com o maridão. 
E o que fazer com o vestido de noiva?
Bem, o coloquei juntamente com o véu e o sapato numa caixa bem bonita e guardei. 
Até que uma conhecida minha, que estava no meu casamento, me ligou perguntando se eu alugaria/venderia o meu vestido. Ela iria se casar na igreja e gostou muito do modelo que usei. 
Porque não?
Acabei emprestando não só o vestido como também o véu e o sapato, que couberam perfeitamente nela. Não cobrei um centavo pelo empréstimo - eu sabia que o orçamento dela estava super curto -   mas ganhei dela, que é uma super maquiadora, 10 maquiagens para usar durante 1 ano.
Dessa forma, o vestido ganhou outra noiva, e todo mundo ficou feliz. Sei que esse empréstimo fez diferença pra ela. E a gratidão dela me deixou muito feliz. Infelizmente não tenho fotos dessa noiva, mas ela estava deslumbrante usando o meu, melhor, o NOSSO vestido.
Meses depois, um amigo do meu esposo ficou noivo. Acabei ficando muito próxima da noiva dele, que é uma fofa, e conversa vai conversa vem, entramos no assunto do vestido. Ela me disse que queria se casar ao pôr-do-sol e queria um vestido sem manga, bem simples. 
Eu falei pra ela:
- Hum... tô achando que já arrumei um vestido pra você. 
Não deu outra!!! Ela veio até a nossa casa, experimentou o vestido e ficou maravilhosa. Seriam necessários somente alguns ajustes na cintura, nada que uma boa costureira não conseguisse fazer.
Ela me perguntou o valor do aluguel e eu disse a ela que há trocas no mundo que não se pagam com dinheiro. Ela também levou o véu e a sandália, que parece até ter tamanho universal, pois coube em mim e nas duas outras noivas que a usaram :)
Eis aqui a terceira noiva que usou o meu, o NOSSO vestido. Linda demais não é?
Fomos ao casamento deles, que foi gracioso em cada detalhe, e não contive minha emoção ao ver outra noiva feliz usando este vestido.
Nessa altura da minha vida, não consigo extrair significado nos apegos. Pelo contrário, encontro muito significado em desapegos. Tenho me questionado muito sobre a necessidade de consumir, de acumular, de guardar para si coisas que podem tocar outras pessoas. E quanto mais me questiono, mas vontade eu tenho de deixar a energia fluir para outros cantos, seja através de um vestido de noiva ou de um simples livro.
Veja bem, eu não saio emprestando o vestido de noiva para qualquer pessoa, mas eu fui tocada por essas duas mulheres batalhadoras. Elas me pediram algo que eu tenho, e que está guardado numa caixa sem nenhum uso. É claro que esse vestido de noiva tem enorme significado pra mim, mas porque não deixar que ele tenha significado para outras mulheres queridas também? O que, além de um apego mesquinho, me impediria?
Nada... Nada mesmo. E confesso: o que eu recebi delas em troca - gratidão genuína e carinho - foi muito maior do que o vestido que emprestei.
Depois da cerimônia religiosa, essa noiva linda da foto me pegou pelas mãos e me apresentou à sua mãe.
- Mãe, essa é a Márcia que me emprestou o vestido dela. - disse a noivinha.
A mãe dela me deu um abraço muito apertado e se emocionou, e eu me emocionei de tabela. Ela me agradeceu muito por oferecer à filha dela algo que ela não pôde oferecer, pois o orçamento dela estava muito apertado, e profetizou tantas maravilhas na minha vida, tantas bençãos e tanta energia boa que eu fiquei até zonza de ouvir aquele volume de positividade  e bençãos.
- Amém, amém, amém - eu dizia.
Foi só um vestido, um véu e um par de sapatos em troca de tantos sentimentos nobres.
Qual é o real valor das coisas, se não tocamos as pessoas?
E você, emprestaria seu vestido de noiva?
Conta aí!
Beijo
Márcia

"O mais importante é a intenção que há por trás de dar e receber. A intenção deve ser a de provocar alegria em que dá e em quem recebe, porque a felicidade é sustentadora e provedora de vida. Por isso, ela acrescenta. O retorno é diretamente proporcional ao volume doado, quando é feito de forma incondicional e sincera. É por esse motivo que o ato de dar tem de ser prazeroso. A intenção por trás deste ato deve ser a do prazer de simplesmente dar. Só então a energia acumulada no ato de dar multiplica-se muitas vezes"

~ Deepak Chopra